sábado, 27 de fevereiro de 2010

JOGANDO GENTEVILLE


É o jogo mais bacana do mercado.
Muito bom.
Aprendi ontem com uma pessoa muuuuuuuuuuito legal, muuuuuuuuuuuito gente boa, muuuuuuuuuuito civilizada e muuuuuuuuuuito bem resolvida.

É assim:

Cria um personagem. Daí vc pode escolher um personagem que vem no jogo, ou criar um outro personagem, sabe, aquele que vc idealiza, que vc deseja.
Se vc escolher o que vem no jogo, vem , na coluna da esquerda uma relação com vários personagens. Dos gordos aos magros, dos inteligentes aos medíocres. Basta escolher, a oferta é variada.

Daí cria um cenário ideal para um encontro.

Daí vc clica num dos personagens da esquerda ou no personagem idealizado e escolhe as opções:

SAIR

CONVERSAR

IGNORAR

SACANEAR

Se vc clica na opção sair. Vc vai até o cenário ideal, janta, se o local for de jantar, dança se o local for de dançar, bebe se o local for de beber e depois aparecem as opções:

Despedir-se sem mais delongas.

Propor namoro.

Transar sem compromisso.

Transar pra depois ver qualé.

Dar um perdido porque apareceu personagem mais interessante no cenário, dizendo que encontrou um velho(a) amigo(a).

Se vc clica a opção conversar aparecem as opções:

Ficar no telefone horas falando de coisas da vida, desligar e ficar na mesma.

Conversar sobre coisas frias, depois mornas, depois quentes, e se masturbarem mutuamente , desligar e ficar na mesma.

Combinar para conversar no local criado, comer, beber, fofocar, zoar as pessoas, voltar pra casa e ficar na mesma.

Desabafar sobre um amor mal sucedido, chorar , desligar e ficar na mesma.

Se vc clica a opção ignorar...

Vc ignora. Porque clicou no personagem então?

Se vc clica na opção sacanear aparecem as opções:

Sair, fingir que vai namorar e depois sumir.

Ficar prometendo todo dia que vai sair enquanto faz teste com oturas pessoas e se não aparecer coisa melhor, sai com a pessoa.

Fazer teste de popularidade , usando todas as armas para seduzir a pessoa, depois dizer que esta em outra relação, uma relação falida, transar, sair várias vezes, transar e depois dizer que foram muito bons aqueles momentos mas a relação melhorou demais.

Seduzir a pessoa e dizer que nao esta no momento certo, fingir que não consegue resistir à pessoa, chorar e depois dar o telefone errado e sumir.

Seduzir a pessoa, fazer um olhar de apaixonado, chorar e dizer no final que ela é uma pessoa maravilhosa , que tudo nela é perfeito, que ela é a pessoa que sempre sonhou, mas que não a merece... "oh como sou infeliz".

É um jogo barato, de enorme circulação. Tá todo mundo jogando.

Experimentem!!!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um dia...


O menino e a menina dormiam com o pai, que lia uma história de gatos que correm atrás de novelos.
Entre uma linha e outra, explicava que não ia mais morar com eles. E que a escolha tinha sido da sua mãe. Ela é que não o queria mais. Mas ele os queria bem demais. E prometeu: Um dia vocês vão morar comigo.
O menino e a menina não entenderam bem a história.
Era a história do gato que corrioa atrás do novelo ou era a história da mãe malvada que mata o pai?
E dormiram.
Pé, ante pé, o pai saiu, para não acordar os filhos.
Olhou para os anjos que dormiam no beliche e chorou.
Não queria ir embora.
Mas foi.
O menino não sabe com que a menina sonhou.
A menina não acreditou na história da mãe malvada. Só queria saber se o gato ia pegar o novelo.
O menino não sonhou. O menino não pensou em nada. O menino dormiu querendo acordar logo e ver que tudo não passou de uma historinha, e as historinhas lidas pelo pai sempre eram tão lindas.
O menino acordou e disparou.
Correu para o quarto do pai.
Sentiu seu cheiro de creme de barbear em todos os cantos.
ELE AINDA ESTAVA LÁ.
Mas quando abriu o armário.. ele estava vazio. Só um terno preto fedendo a naftalina.
Ele quis gritar, ele quis se desesperar, ele quis chamar o pai.
E ele gritou, e ele se desesperou e ele chamou pelo pai.
A mulher suarenta que cuidava dele o abraçou e disse:
- Calma, ele já volta!
E ele nunca mais voltou.

De repente, um barulho de chave. A mãe não abria a porta assim.
Era o pai que voltava.
E ele nunca mais voltou.

PERDAS



Foram tantas...
A barca e a ponte que não precisei mais pegar...
A estrada tarde da noite, na chuva, que não precisei mais ir...
A noite cheia de plânctons e estrelas que não vou ver mais...
Um quixote, na mesinha de cabeceira que ficou lá... ou não está mais lá...
A visão da Avenida Atlântica, calma, à noite, com ruídos de travestis sonolentos que não mais verei...
Os coelhos e patos subindo um morrinho... será que ainda existe aquele morrinho?
Tanajuras num morro fazendo um barulho de helicóptero...
Tantas perdas.
Vocês todos estão lá.
Não morreram.
Todas essas lembranças ficam lá.
E daí fico , nessa manhã chuvosa pensando se realmente perdi.



Ontem fui ver PRECIOUS. Ou PRECIOSA em português.
Um filme que fala sobre perdas, sobre ganhos... é o tal negócio, por onde vemos as coisas?
Pelo lado cheio, ou vazio?
Preciosa perde, perde muito, e ganha , ganha muito.
Ela vence. E ela perde.
Ela perde. E encontra.
Como se pode ter uma visão tão otimista com tanta dor?
Eu me acabei de chorar no cinema.
Foi duro acompanhar a trajetória da heroína.
Mas saí vivo do cinema, vivo para encarar minhas perdas.
E meus encontros.
Não sei em que lado do copo estou.
Mas sei que estou vivo, e preciso, com força, continuar.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010





A menina brincava com um carretel de linha, quando a velha sentou-se a lado dela e começou a contar, assim, como quem fala sobre o tempo ou sobre o nada.
"Era uma vez um homem bom. Trabalhador, honesto. Cumpridor de seus deveres. Um dia ele quis casar, e o pai da pretendente deu a ele como dote um fio, o fio mais fino do mundo e disse a ele:

- Esse , é o amor que minha filha vai ter pelo senhor. Cuidado, porque quando ele se romper, o mundo acaba junto com ele.

O homem, que acreditava muito em amor, em rezas e histórias, pegou o fio e o enrolou cuidadosamente num carretel dourado. A mulher, todo dia, quando acordava, pegava carinhosamente o carretel e desenrolava todo o longo fio e pendurava ali todas as roupas que lavava. O fio era muito fino. Mas muito forte. Ali, pendurava-se casas, castelos, mundos inteiros. E o fino não se rompia. Um dia, o homem que não sabia que a mulher fazia isso, em segredo, e quando viu todas as suas roupas estendidas naquele varal de fina espessura, berrou enfurecido:

- Sua louca! Enrole já esse fio! É isso que você quer? Quer que o seu amor por mim acabe levando o meu mundo inteiro junto com ele?

E o fio, naquele instante se rompeu.
E tudo se foi com ele...
Roupas, casa, jardim, rua, esquina e até a mulher desapareceram como por encanto
A voz do homem também desapareceu.
E o homem ficou ali. Quieto. Se perguntando porque ele não foi junto com o fio."

A menina reclamou.

"Cruzes, que história triste, vó!"

A velha deu de ombros e foi ver a novela.




A roda que traz, é a mesma roda que leva




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


O navio demorou a chegar. Mas chegou.
Por mais que se esforçasse, Ele, o de olhos azuis, não conseguia vê-lo.
Ele , o de olhos azuis, tinha esperado a vida inteira. Sonhado, a vida inteira. Investido dias e noites a fio para que visse, desembarcando, aquele de olhos pretos que estava para chegar.
O de olhos pretos foi o último.
Parecia cansado, parecia surrado. Parecia vivido.
Não era o príncipe que imaginava ser. Nem o santo. Mas era quem ele sempre sonhara.
Abriu sua casa para ele.
Comeram e beberam. Amaram. Sonharam uma vida juntos.
Em uma noite navegaram por todos os mares, voaram alturas.
De dia, o de olhos azuis acordou. E o de olhos pretos não estava mais lá.
Era um ser de olhos vermelhos. Estranho. Incômodo. Não só não era um príncipe, mas parecia um demônio. Mais parecia ...
O de olhos azuis se assustou. No seu susto ele jogou todas a substâncias possíveis e imagináveis para destruir o monstro. Indiferença. Ódio. Raiva de todos os seus antepassados.
E quando gritou, quando berrou, quando vociferou fogo e ácido, ele viu que estava sonhando.
Não era sonho a chegada. Nem os sonhos. Nem os planos.
Os olhos vermelhos sim, eram o pesadelo.
Os olhos vermelhos eram o medo de que aquilo tudo não fosse verdade.
O de olhos pretos se asustou. Quis correr, fugir daquela pessoa que parecia possessa.
- Seus olhos ficaram vermelhos! - O de olhos pretos disse.
- Os meus... também? - Perguntou o de olhos azuis ainda babando ódio.
- Deita aqui no meu colo. Deixa eu cantar pra gente sonhar de novo...
Apesar do medo, o de olhos azuis deitou e dormiu mais um pouco...
Eles viveram, dormiram pesadelos, acordaram sonhos, dormiram música, acordaram trevas, mas nunca, nunca mais pensaram em se deixar.
Porque descobriram que era só olhar nos olhos para o medo se acabar.
(André Pimentel)




... e enquanto ele espera, ele produz, ele escreve, ele vive.
E a aliança continua.
Até um dia, quando o tempo passar.