sexta-feira, 5 de outubro de 2012

MULTIDÃO

                                           Desenho de caneta esferográfica em A4 de
                                          Eduardo Cambuí Figueiredo Junior                                                                  
  




- Oi, meu nome é Paulo
- Eu sou Luciana, muito prazer.

    Não demorou muito beijaram-se. Três dias para a primeira transa. Uma semana para a segunda. Um mês para a terceira.

- To gostando demais de você. Acho que...
- Eu te amo!
- Não faz essa cara de que é precipitado não. Te amo também.

    Antes da quarta transa, saíram os dois e os amigos dele. Ela se sentiu bem...desconfortável. Um fingiu simpatia perguntando o que ela gostava de fazer nos fins de semana e se tinha nascido no Rio , isso depois de Paulo ter cochichado qualquer coisa no ouvido dele cujo fim era... : fala qualquer coisa. O outro mal falou nada com ela, apenas uma frase curta e certeira acerca de uma ex-namorada de Paulo: - ele tem um péssimo gosto pra mulher.

    Desnecessário dizer que a transa foi qualquer coisa. Ela fingiu e "gozou" rapidamente, fingiu dentista no dia seguinte, não dormiram juntos. Ele desconfiou do jeito dela, sabia que os amigos eram ciumentos, possessivos e competitivos, mas não falou nada para não gerar um DR no sexto encontro. Ou seria o quarto? Não importa. Era cedo.

     Ela fez de tudo para não ver os "malas" de novo. Resolveu apresentar seus amigos para ele. Foram simpáticos, mas formais. Ele esperava mais. Pelo tanto que ela amargou a relação depois da saída com os amigos dele, ele imaginou que os amigos dela fossem fazer "festinha" o tempo todo.

 - Esquisitos eles...
 - Os MEUS amigos?
 - É. Não bebem... não fumam.... são tão...formais.
 - Eles são assim, mas são boa gente...
 - Sábado tem futebol, quer ir?
 - Aqueles dois vão?
 - Claro, o Tomate é centroavante e o Anão é...joga mal hahahaha!
 - Ele é muito pequeno mesmo, e feio... e burro também.
 - Nossa, quanta hostilidade.
 - Não... imagina... até gostei deles, bem, eles são ciumentos com o amigo...me trataram mal... mas com o tempo... né?
 - Claro, com o tempo você vai ver como são legais.

      Paulo jurou pra ele mesmo que jamais iria a uma festa com aquela gente. Talvez num velório eles fossem bem adequados. "Figuração de velório" . Riu sozinho dirigindo pra casa.

   - Adorei ele, amiga! Mas parece que ele não gostou da gente... tão calado...
   - Vocês é que ficaram caladas...e o Marcinho então? Fez umas piadas tão sem graça...
   - Ele não tem nada a ver com a gente, amiga... se veste mal... aquela capanga... 
   - Pra guardar celular, óculos, carteira... a capanga é de Buenos Aires, chique!
   - Capanga é capanga. Pode parar, amiga, a gente foi gentil com ele... rimos muito... ele até deu em cima da... mas a conta foi cara né?
    - Como é que é?
   - Esquece, foi uma coisa que a gente comentou mas logo a gente descartou. A Fernanda é que é super derretida, acho que ele interpretou mal e meio que foi simpático demais com ela, mas é o jeito dele, ele é mais expansivo que a gente...
     - A Fernanda? Ele jamais daria em cima de uma mulher que usa lente colorida.
     - Lu, ele usa capanga.

     - A Lu vai com a gente no cinema, legal né?
     - Mas ela gosta de filme de ação?
     - Se não gosta vai passar a gostar , ela tem que gostar dos meus amigos, cara...
     - Ato falho, Paulão! Perguntei se ela gostava de filme de ação. Ela não gostou da gente né?
     - Porra, vocês mal falaram com ela, coitada. Excluíram ela de todos os assuntos, sabe como é mulher, quer ser paparicada.
       - Por isso que eu to solteiro, mermão. Não quero mulher no meu pé. E o Tomate também não foi com acara dela não. Você sabe que quando o Tomate não vai com a cara... Mas tudo bem, amigo, a gente torce aqui pela sua felicidade... Você é nosso!
        - Porra, irmãozão, tamo junto.
        - Mas olha, eu ia chamar a Vanessa, aquela louraça que você era a fim. Ela soube que você tá namorando. Ficou mais a fim ainda.
        - Nossa. Ela a fim de mim? Emocionei! Qual é a operadora de celular dela?
        - Claro.
        - Não tenho chip da Claro, deixa pra próxima. Não leva ela não, pode me criar uma situação difícil.
        - Claro, irmão, não vai faltar oportunidade.
        - Já é.

         Viajaram para uma praia quase deserta no Nordeste. Passaram duas semanas em idílico romance. Basicamente os dois. Fizeram um pacto. Depois que Luciana recebeu um telefonema meia noite do Marcinho chamando-a para uma festinha massa, um clima ficou no ar. Piorou quando ela viu "sem querer" uma mensagem do Anão, que de porre, escreveu: "Larga essa mala mal humorada e volta pros seus irmãos". Daí veio a idéia quase simultânea do pacto: Desligarem os celulares enquanto lá estivessem.

              E a harmonia e felicidade reinaram naquela casinha a beira-mar.

             O Carnaval foi em Salvador com os amigos dele. Briga por causa de uma ex do Tomate que resolveu se interessar pelo Anão. Paulão se meteu na história acobertando Anão e a pretendente. Lu não gostou, chamou Paulão de alcoviteiro. Duvidou da fidelidade dele.
            A semana santa, em Lumiar, como combinado, foi com os amigos dela. Ele foi simpático e feliz. Evitou a Fernanda que claramente dava em cima dele. Não levou a capanga, comprou uma incômoda mochila. Briga porque odiava acordar cedo. Briga por causa de gente que não fuma e resolve infernizar quem fuma. Ele mesmo odiava cigarro, mas odiava mais ainda a patrulha. Briga porque odiava música eletrônica e o Marcinho, dono do carro onde foram queria mostrar todos os sets pra Lu. Ironizou disse que era música de quem não entendia nada de música. Climão.
               Nas férias de Julho foram pra Caracas visitar a mãe dele. Não podiam dormir juntos. Desrespeito. Ela acatou , não sem uma certa amargura . Odiou a sogra.
               Feriadão do Sete de Setembro. Ele deu um Notebook pra ela. Rosinha. Macintosh.  Do jeito que ela queria .
              Marcinho e as amigas sumiram. Ninguém ligava mais pra ela, fazia uns dois meses.
              Anão e Tomate desapareceram também.Tomate começou a namorar. Anão entrou em depressão.
              Paulão dava desculpas para não sair com ela.

                - Vou à casa do Anão.
                - Anão tá mal hoje, Lu, tenho que ir lá.
                - Hoje não dá amor, preciso ir na casa do Anão.

                - Chamei a Flavinha pra ir com a gente ao cinema, tanto tempo que não vejo a...
                - Não pô, cinema é uma coisa só de dois....
                - Outro dia você levou o Anão.
                - Pô, o Anão tava mal.
                - A Flavinha vai.

                No aniversário dele, todas as ex namoradas dele resolveram ir. Ele não ria, ele mal mexia a cabeça e mal com conseguia tocá-la. Anão fez questão de levar o bolo , estava feliz da vida, saindo com uma portuguesa que resolveu apresentar a todos. Claro, ela tinha sido Miss Setúbal. A inveja que viu nos olhos de Paulo não foi impressão.

                No aniversário dela não foi quase ninguém. Ela o culpou, mas não disse nada a ele.

                 O Natal ele resolveu passar com a mãe em Caracas.
                 Combinaram de passar o ano novo juntos, mas ele "perdeu o avião".

                 Foi o melhor ano novo da vida dela junto com as amigas e o Marcinho, que agora era DJ.
                 Ele nunca abençoou tanto o fato de ter esquecido de colocar o despertador. Perdeu a hora. Ato falho. Passou num restaurante italiano. Bebeu muito. Fumou muito. Fodeu muito.

                Ainda se falaram algum tempo pelo Facebook, inbox.
                Hoje, ela não responde mais. E ele acha bom. Não queria ele tomar a iniciativa de não responder.

                Eles e seus amigos foram felizes para sempre.





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