quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ALICE ATRAVÉS DO BELICHE

"We meet again old friend" de Tommy Ingberg (manipulação em photoshop)




O menino via a cama da menina em cima dele. Lençol listrado por entre o estrado. No canto esquerdo do olhar, o pai. Com um livro aberto. A história dos gatinhos que corriam atrás de um novelo. Seu olho teimava em fechar. Mas ele não queria. A voz do pai era música. Música triste. Ele sempre lia com voz tão alegre, às vezes sonolenta. Nunca triste. A mãe passa como sombra pela porta. A porta do quarto deles fecha com estrondo. O pai para. Aperta os olhos. Raiva? Outro sentimento parecido. Um sentimento que ele não conhecia. Ainda.

A menina via o teto acima dela. Um globo redondo. O pai abaixo dela lendo seu livro preferido: Alice no País das Maravilhas. Sempre pedia pra ler a parte onde a gata corre atrás do novelo. O pai estava lendo com raiva e rápido. Decerto estava querendo logo terminar o livro. Estava acontecendo alguma coisa entre ele e a mãe que passou com passos firmes pela porta. A porta do quarto deles fecha com estrondo. O pai para. Dali não consegue ver o que o pai estava sentindo, ele baixou a cabeça. Estava chorando? 

- Pai?
- Filha, dorme.
- Vocês brigaram?
- Amanhã papai vai pra casa da tia Lôra. Mas eu venho todo dia visitar vocês.
- O senhor não vai mais morar com a gente? - Perguntou o menino.

A menina entende e chora. Sempre que a menina chora, o menino chora junto. E o pai sempre chora com eles. A mãe chora no quarto trancado.

O sono vem embolado com as lágrimas. A menina dorme logo. Tem o sono pesado. O menino olha fixo pro pai. E a imagem do pai vai sumindo nos olhos marejados. A voz dele permanece nos seus sonhos. Sua voz guia-o nos amores frustrados, nos recomeços, nas estradas vazias, gargalha com suas alegrias. 

O menino acorda num salto, corre até o quarto deles. Nem a mãe, nem o pai. Abre o guarda-roupa. Só um terno preto.

Grita, com a voz dele:

- Cadê você, pai? 

A menina acorda num salto, olha pra baixo e vê o irmão saindo correndo. A "bá" entra no quarto e a ajuda a descer, aperta-a ao seu peito , seu colo é tão macio. Ouve os gritos do menino no quarto lá do fundo. A menina pega na mão da "bá" e vai até o menino que está dentro do armário, chorando,e enche-o de beijos.

- To aqui.

O menino chora terminando de digitar o texto. Tem dificuldade em terminar, porque não quer colocar simplesmente "FIM". Ou dizer que também gritou quando a irmã partiu. Também não quis dizer que via em toda pessoa que partia, um terno preto esquecido no guarda-roupa. E que queria chamar todos de volta para que todos pudessem vestir o mesmo dia de Sol.





quarta-feira, 21 de novembro de 2012

MÁ IMPRESSÃO

- Tem um ninho de bem-te-vi na sua janela.
- Bom sinal.
- Ótimo sinal.

- O sinal tá aberto.
- Nossa, nem vi o sinal, distraí.

- Sinal de que está tudo perdido.
- Sinal de que nunca houve nada.

- Acho que isso é sinal de amor.
- Não sei interpretar os sinais.

- O que é isso, um sinal?
- Não, câncer de pele.

- Essa nuvens...
- Lindas...
- Não é isso.
- O que é que tem?
- Parecem mais sinais de fumaça.
- Aquela ali parece alguém dizendo: Fomos destruídos por uma bomba atômica.
- A de baixo parece sinal de adeus.

Cigarra cantando no final do dia : Sinal de sol no dia seguinte.
Dor no metatarso direito : Sinal de chuva.
O marido bem-humorado: "Bom dia". A mulher responde: "Só se for pra você". Sinal de TPM.
Um advogado consegue adiamento de um julgamento truculento: Sinal de Pizza.
A mocinha da novela desmaia no capítulo de segunda-feira , depois de ter transado com o galã no capítulo de sábado: Sinal de Gravidez.
O médico fala que já fizeram de tudo e que ela é muito forte e vai suportar: Sinal de Óbito.

Ela ligou, disfarçando a saudade com uma frase casual, ele diagnosticou cinismo.
Ele ligou, disfarçando a imbecilidade com uma frase banal, ela diagnosticou frieza.
Ela ligou, disfarçando o amor com uma frase idiota, ele percebeu vazio.
Os dois entenderam os sinais errados.
Os dois se amam.
Mas preferem se esconder da chuva sob marquises de papel crepom.
Se encharcam de medo do futuro e covardia.

Mau sinal.










segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A DOIDA



- Ela é uma gracinha mas é tão dependente ... (disse ele comendo um bolo de chocolate que o irmão gordo acabara de fazer).
- Por isso que eu não curto namoro. Começa tudo bem, depois é essa palhaçada de "não vivo sem você".
- Por isso que você não curte mulher.
- Nem homem. Gosto mesmo é de videogame, você sabe, mas quando to a fim de dar umas socadas , nada melhor que uma mulherzinha.
- Tu é um grosso. Mas faz bem bolo de chocolate. Ia dar um maridão.
- Tipo você?
- No fundo eu tenho pena da mulher que se apaixona por mim. - O celular vibra, ele odeia barulho de celular, atende com um sorriso sincero - Oi amor, que bom que você está vindo... fala pouco...pouco pra gente se ver... hmmm ... nada, nada acho que é dor de barriga...comi alguma coisa ontem. Hoje nem consegui nada, mas vai passar, é só você chegar e tudo vai passar...então vem...vem logo amor...não liga muito pra não pagar uma fortuna de celular... beijo amor...te amo...
- Se eu soubesse tinha feito o bolo sem açúcar. Ficou todo meloso... queria ser como você.
- Eu também.
- Não sei quem é mais canalha.
- Você claro. Pelo menos eu dou a elas a sensação de felicidade.
- Não iludo ninguém. Se existir Deus acho que ele não te deixa passar pela portinha.
- O portão do paraíso virou uma portinha?
- Sei lá não acredito nessa porra mesmo.

Ela ia demorar a chegar. Dormiu. Foi pro Facebook. Acordou , fez uma macarronada. Comeu de lamber os beiços. O telefone vibra novamente. Ele atende com...bem, ele atende.

- Oooi amor. E aí? Tá almoçando? Comida boa?... é, na estrada é assim mesmo... é...é... não...não melhorei não... ainda agora fiquei uma hora no banheiro amor... to esquisito...não sei... é...sei... sei... vou fazer isso sim... beijo... também.

Vai ao Facebook, escreve uma mensagem: "Júlia chegando, vai ser complicado da gente sair todo mundo. Você sabe como ela é." O outro responde: "To sabendo. A gente deixa pro outro fim de semana. Vocês estão bem?" . " Daquele jeito. Mas a gente vai se acertar". "Torço por você amigo".

O amigo sai do Facebook e passa uma mensagem: "Barril, a xarope da namorada do Sbarro tá vindo aí. Melou o forró, a velha não gosta, vão ficar ouvindo ópera na casa dele o finde inteiro hehe". Barril responde: "Tranqs. Blz.".

Manda alguns emails, dorme, come um biscoitinho, a vinda dela sempre trazia alguma ansiedade. Dorme, ouve música, vai dar uma volta de bicicleta. Olha o relógio. Ela está quase chegando. O vibra toca:

- Oi mô. To muito mal. Mal de verdade. Não saio do banheiro...me avisa quando estiver chegando.

Ela saiu da rodoviária quente como o inferno. Esqueceu de ver como o ônibus era. Era convencional, sem ar. Oito horas de calor infernal. O cabelo dela estava demoníaco. Tudo parecia mais um conto dantesco. Ligou pra ele. Que bom, ele parecia feliz por recebê-la. Então as cismas não eram verdade. Que bom. Ou não. Estava decidida a ir e terminar. Aquilo tudo não fazia sentido. Ela não o sentia mais perto. Estava muito longe, mais do que a distância que os separavam. Tentou se concentrar nos estudos. Mas o balanço a estava deixando enjoada. Preferiu dormir. Dormiu profundamente. Acordou assustada. Ligou, ele sempre foi seu porto seguro, onde ela podia depositar seus medos, suas inseguranças. Sempre pensava que tinha que voltar à análise, fazer isso com um analista. Mas ele parecia tão compreensivo. Foi seu jeito solidário que a encantara. Ele era encantador. Chorava com as suas dores. Mas ultimamente não chorava mais. Ela era só dor. Leu, ouviu música, estudou. Tentou se distrair mas acabou dormindo. Mal podia esperar a hora de vê-´lo esperando na rodoviária. Que terminar que nada. Estavam engatando um relacionamento tão sólido, passando pelas dificuldades. Ele era mais resistente que ela. Ligou. Dor de barriga? O dia inteiro? Melhor lembrar a hora que ia chegar. Não gostava de esperar em rodoviária tarde da noite. Ele estava mais reticente. Cisma. Claro, muito cismada. Meta: Ser mais segura, mais auto-confiante. O beijo na rodoviária selaria esse pacto secreto com ela mesma. Ficou tão feliz de repente que resolveu ligar de novo, brincando.

- Oi, amor... ta complicado aqui...que horas? Não vou não! Ta doida?... você vai até aquele ponto do outro lado da rodoviária e pega o ônibus..ah você sabe? Tá bom... Desligou , acho que ela ficou puta. - Disse ao irmão acabando de comer feijão, batata frita e bife, que ele comera com gosto.
- Coitada. Você podia ir lá.
- Já tá na hora de eu parar de ir em rodoviária buscar, ela já conhece a cidade.
- Fiquei com pena. Liga lá no jogo.
- Ainda tem isso, o jogo.

Viu o jogo inteiro. Meia noite e ela não chegava. Ligou. Caixa Postal. E ligou, e ligou, e ligou. Deveria ter ido busca-la , pensou. Mas ela tinha que aprender a ser menos dependente dele. E se aconteceu alguma coisa? Pensou. Não, não tinha acontecido nada. Ela ia chegar bem mau humorada e eles resolveriam na cama. Mas não podia esquecer da dor de barriga. Porque inventou aquela dor de barriga? Ah é, não estava a fim de transar com ela naquela noite. Uma mentira precisa ter começo, meio e fim e do jeito que ela era, ja tinha comprado um remédio pra ele na estrada. Pensou nela com ternura. Tudo ia dar certo no final. Ele tinha certeza. De novo, Caixa Postal. De novo e de novo. Duas da manhã. Mensagem:

"Estou voltando no mesmo ônibus que vim, seja feliz".

Louca. Mulher louca. E quer me enlouquecer. Acabou. Se ela quer que acabe, acabou.

- To indo dormir. Cadê a Júlia?
- Foi embora.
- Deu ruim.

Nunca mais a viu.
Aquela doida.

domingo, 18 de novembro de 2012

EM CINCO MINUTOS





Ele viu a morena esperando o ônibus e pensou:

"Vou até ela. Quem sabe? Não estou fazendo nada".

Eles papearam. Se encontraram no dia seguinte. Viveram um romance lindo por seis meses. Resolveram se casar, ela engravidou. Depois de algumas complicações na gravidez, ela perdeu Clara. Estavam casados, se olhavam, mas não mais se reconheciam. Ela começou a beber. Ele conheceu Duda, conheceu Sharon, conheceu Sara. A morena descobriu um email de Sara e enlouqueceu. Quebrou o computador. Depois rasgou todas roupas dele. Saiu para beber. Encheu a cara. Ficou zonza e nem percebeu quando pegou a faca na cozinha e se deitou no sofá. Ele abriu a porta, cuidadosamente para não acordar a mulher que supunha na cama, e quando estava indo para o quarto, foi surpreendido quando ela o esfaqueou pelas costas. Uma, duas, três vezes. Ele caiu e não acreditou que estava morrendo.

Ele viu a morena esperando o ônibus e pensou:

"Vou até ela. Quem sabe? Não estou fazendo nada".

O ônibus dela chegou, não deu tempo de alcança-la. Nunca mais viu a morena.

Às vezes, o acaso precisa chegar antes que a gente se torne o acaso.


CARTA




Tentei fazer mapas para não cruzar com você.
Obrigado, por, hoje, ser o centro da minha vida infernal, novamente.
Obrigado por me lembrar que eu não tenho o direito de ser feliz.
Que eu não tenho o direito de amar.
Que me sinto tão pequeno que você, que é nada, parece Um Cristo Redentor. Porque sinto sua respiração, sinto sua presença macabra e sombria.
Meu Demônio ali, presente, enorme e poderoso. Cínicamente blasé. Como se nada fosse.
Você uma criança, infeliz. Pó.
Você, que é Nada, trouxe a tempestade ao meu dia de Sol.
Trouxe choro.
Trouxe dor e medo.
Te renego, demônio. Pego a minha cruz e te renego.
Mas não adianta.
Você é mais que você. Você é todos os escuros por onde andei. O meu peso.
Você me faz uma pessoa pior. O passado vem até mim , me soterrando qual cavalaria desembestada.
Preciso de um Amor que disso me salve. Um ser encantado que derrame o pó do amor por mim mesmo.
Que me faça ver o quanto sou grande. O quanto sou poderoso.
Que vai iluminar de tal forma a minha estrada que as sombras nada signifiquem.
Hoje?
Sou resto. Sou lixo.
O que restou de cada segundo que você sorveu. O resto de vida e de viço que você sugou.
Hoje sou o personagem que morre antes do Fim.
Desterro da minha alma.
Venha, leve o que tenha para levar.
E desapareça.
Sem deixar vestígios.







sábado, 17 de novembro de 2012

CINISMO (no MOTEL)



- Gostou da massagem amor?
- Faz mais um pouquinho...ali.
- Tá, amor.

A massagem... ali..era justamente para começarem um sexo selvagem. Da parte dela. Ele apenas cumpriu o "trivial simples" enquanto ela urrava, unhava, mordia. Uma louca.

- Foi bom amor?
- Você exagerou.
- Como assim?
- Não fui tão bom assim. Na verdade eu sou bem mediano.
- Ah, sei lá acho que é essa coisa que eu sinto por você quando você me possui.

Ele ri de sentir dor no abdômen.

- O que eu falei?
- "Possui". Eu estava falando sobre isso com a Darlene. Possui...

Nova sessão de risadas intermináveis. A face dela fica sombria.

- Acho que alguém está sendo sacaneado aqui.
-Você, é claro.
- Ainda confirma?
- Não tem nada mais cafona que essa expressão "possui". Parece que estamos nos "50 tons de cinza".
- Vai me dizer que você não gosta.
- Nunca li. Um cara que fica amarrando a mulherada, pingando as trouxas com cera quente...
- Vai...fala...
- Esconde um ódio pela mulher... isso é misoginia.
- Quer uma cerveja?
- Bora tomar uma.

Tomam a cerveja, duas, três , na quarta partem para o "segundo tempo". Ela brochou.

- Nossa , que tédio.
- O que foi, Ju?
- Sei lá, parece que você está com uma boneca inflável.
- Será que não é porque você está superestimando o sexo?
- Eu até senti o gosto de plástico na boca.
- Deve ser o sabonete que eu...
-PARA!
- O que foi, meu Deus?
- Para de falar em Deus você não acredita nele.
- Tá , foi só uma expressão.
- Não interessa!

Ela vai até a bolsa, pega uma vela, acende um isqueiro. Ele assiste a todos os movimentos atento. Ela se aproxima com a vela que começa a derreter. Ele não acredita que ela...

-AI!
- Tá sentindo alguma coisa?
- Porra, para de pingar essa merda em mim. AI!
- Tá gostando? Dor.

Não satisfeita ela encosta a vela nele.

- AI! Tá louca! Você me queimou... de verdade.
- Ficou uma marquinha. Pequenininha. Que frescura. Nossa, agora to ficando excitada.
- Tá maluca? Vamos embora.

Ela tira um revólver da bolsa.

- LOUCA!
- Pede pra viver... ou pra morrer...
- Você jamais faria... você faria?
- Você nunca viu uma mulher.... uma pessoa realmente excitada viu?
- Claro! Mas isso.... nunca vi uma arma de perto.
- Mas está vendo agora.

Ela engatilha a arma.

- NÃO!
- Sentimento!!!!!!!!!!! Estou vendo SENTIMENTO!!! Medo? Pavor? Delírio pre-mortem?
- Por favor!!!
- Súplica, você está suplicando.........
- Vira essa arma pra lá...
- Você está chorando.... De um olho só, igual ao Bibelô do Nelson!
- Não faz isso comigo...
- Agora me come...
- Hã?
- Vem...
- Nossa, eu to excitado...
- Vem...
- Vou!

A arma escorregou da mão de Judith e caiu no chão. Um tiro acidental que perfurou a janela do "Flor de Maio". O tiro o excitou ainda mais. Puxões de cabelo, arranhões, xingamentos. Clímax.

- Uau. O que você fez comigo, Ju? AI! Você encostou na queimadura da vela.
- Pra você nunca se esquecer de mim. Se veste e sai.
- O quê?
- Um cínico , mesmo depois que desperta, sempre volta ao ponto inicial.

Renato se vestiu e saiu. Estava amanhecendo. Olhou para a queimadura com um esgar de ternura.

- Onde tem uma farmácia por aqui?



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

CINISMO




- Minha virtude maior é o desapego.
- Quer dizer que eu jamais devo esperar qualquer coisa de você?
- Melhor não...mas não se preocupe, quero você pra sempre.
- Mas, sem apego?
- Sem nenhum apego.
- Mas como se quer alguém pra sempre sem nenhum apego?
- Querendo alguém pra sempre sem esperar absolutamente nada de você, e vice-versa.
- Quer dizer que você inaugurou o cinismo na nossa relação.
- EU NÃO SOU CÍNICO.
- Claro que é. Eu estar aqui ou não, é a mesma coisa.
- Claro que não, eu te amo.
- Sem apego?
- Sem nenhum apego.
- E se eu morrer?
- Você não vai morrer.
- Eu estou dirigindo esse carro, posso bater ali naquele poste e morrer, já que o meu carro não tem air bag.
- Bobagem.
- Se eu morrer você vai cagar pra mim.
- Não.
- Vai chorar?
- Provavelmente.
- Vai  falar no velório: "Como vou viver sem você"?
- Talvez, na hora da morte falamos umas coisas tão sem sentido.
- Cada vez mais cínico.
- Quer parar com isso?
- Então é sem sentido dizer: "Como vou viver sem você"?
- É. Porque é ÓBVIO que a gente consegue viver sem alguém.
- Substituindo por outro alguém?
- Provavelmente.
- Cínico e cachorro.
- Acho melhor a gente deixar pra outro dia.
- Sim, o cachorro é errante e instintivo, o cachorro se apega a quem lhe dá qualquer coisa. Ou comida. O dono se contenta com um abanar de rabo. Como você faz quando diz : "Eu te amo".
- Teve aquele cachorro do Richard Gere naquele filme...
- Aquele cachorro não era um cínico, tinha uma ligação espiritual com ele, transcendental. Acho que ele não era nem um cachorro.
- Pois é, mas se parecia bastante com um.
- Você também. Sai do meu carro.
- Mas a gente está numa auto estrada.
- O seu faro é suficiente pra encontrar o caminho de volta.

Darlene parou, destravou a porta e deixou Renato sair. Ele, cabisbaixo, passou uma mensagem para Judith, que lhe respondeu prontamente. Sentou no acostamento e uma hora depois Judith chegava.

- Oi amor.
- Você me acha cínico?
- Que pergunta boba, amor. Quer dizer que ela te deixou aqui e se mandou?
- Foi assim.
- Vamos aproveitar e dar um pulinho ali no "Flor de Maio"?
- Sexo... não sei, acho que fiquei meio chocado.
- Nada que uma boa massagem , uma cervejinha e um amorzinho não cure. Hoje você vai ser todo meu.
- Vai começar tudo de novo.

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Fundada por Antístenes a filosofia do Cinismo pregava o desapego aos bens materiais. Inicialmente pregada para repudiar o apego ao luxo ateniense, essa filosofia serviu para designar os homens desprovidos de decência já que o desapego se estendia até aos costumes , aos sentimentos, à moral da época. Por isso, os adeptos do cinismo eram comparados aos cachorros, completamente despudorados, errantes e levados apenas pelos instintos.



domingo, 11 de novembro de 2012

MENINO



- Pai, falta muito?
- Ô filho, se a gente pegar ônibus, vai demorar pra chegar, não tá vendo que tá engarrafado?
- Mas minhas pernas doem....
- Já tá chegando, já tá chegando, lá eu vou comprar um cachorro quente pra você.
- Legal! E posso tomar Grapete?
- Grapete não que você tá gripado.
- Puxa.
- Tá bom, pode tomar Grapete.
- O senhor acha que a gente vai ganhar?
- Ninguém sabe, mas não vai ficar triste se a gente perder tá?
- Quem fica triste é o senhor. Fala cada palavrão. Pra mim tanto faz, não gosto do Rivelino.
- Porquê?
- Ele é Corinthiano, como é que vai jogar no Fluminense?
- Não, filho, ter jogado num time não quer dizer que ele torce pra aquele time. Fora que ele pode ser Corinthiano em São Paulo e Fluminense aqui.
- Nada disso, pai, eu sou Fluminense em qualquer lugar.
- Então me fala o time todo do Fluminense.
- Tá. Gil, Carlos Alberto, Manfrini, Silveira, Assis,Félix, Zé Maria,Marco Antônio, Paulo César.
- Mas e o Rivelino?
- Pai, ele torce pelo Corinthians pai!
- Mas ele é o craque do Fluminense filho!
- Tomara que o Fluminense contrate o Pelé!
O pai ri.
- Caramba, que gigante! - O Maracanã surgiu majestoso nos olhos do menino.
- Bonito né filho?
- Puxa pai, obrigado por me trazer. Bonito, né Mone?
- Quero fazer xixiiiii!
- Vamos parar ali pra você fazer xixi.
- Passou.
- Menina chata!
- Parou, Chiquinho!
- Chato é você tá?
- Parou, Mone!
- Quero Mineirinho!
- Calma, tamo chegando.
- Compra uma bola?
- O que você vai fazer com uma bola desse tamanho no Estádio?
- Não é pra jogar no Maracanã é pra brincar amanhã na sua casa.
- Mas quem vai ter que carregar sou eu.
- Pai, você é chato.
- Não é nada!
- É!
- Não é!

- É!

- Não é!

- É!

- Não é!
- Parou os dois, senão eu volto pra casa!
- Não, pai quero ver o Fluminense!!!
- Vai ser quanto pai?
- Vamos vencer!
- De quanto?
- Sei lá. 
- Quatro a zero!
- Ahhh pai, não queria que o Vasco não fizesse gol!
- Então vamos dar um gol pro Vasco , né filho? - E piscou pro filho.
- Tá. Garota chata!
- Eu sou chata pai?
- Não. Você é meu amor!
- Eu também sou seu amor, pai?
- Os dois são meus amores!
E chegaram no Estádio. O pai segurou a filha no colo e pediu para o filho apertar bem forte a mão dele. Tinha que entregar os filhos intactos na casa da mãe. O filho sentiu medo daquela gente toda gritando, correndo, se apertando para pegar o melhor lugar na arquibancada. A filha fez beicinho , mas depois riu. Ela se divertia com o perigo. O pai tinha medo de perder os filhos de vista. Não podia se imaginar sem eles. O filho ao chegar na arquibancada e ver aquele gramado verdinho deixou soltar um... "Pai, é bonito demais!".
A menina acertou. O Vasco fez um gol. Mas o Fluminense fez 4. Goleada!
Campeão por antecipação em 1975.
Como hoje.
Lembrei do meu pai. Senti minha irmã no meu peito.
Eles são meus campeões.
Pra sempre.




quinta-feira, 8 de novembro de 2012

GRANADA





E alguém gritou....

VAI TOMAR NO CU!!!!!!!!!!!!

...e ninguém estava ali.

Foi um.

ECO.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

INVISÍVEIS FLORES

        




Pedrinho demorava o máximo para descer para o Recreio nos anos 70, já que não falava mesmo com ninguém e tinha vergonha de falar: "Dá licença", esperava a confusão passar na porta da cantina para comprar Grapete e Mirabel.

      Luciana aceitava comprar a merenda de todas as alunas descoladas da sua turma , só assim elas não enchiam o saco falando da sua meia três quartos furada ou sua camisa meio amarelada , a mesma que usava no ano passado.

       Theo tirava sempre notas abaixo da média para nunca ser citado pelos professores.

     Amanda fica esperando na esquina da casa dos amigos em dia de festa para nunca ser a primeira a chegar. Também não quer ser a última e passa a festa inteira indo ao banheiro.

     Janaína não sai com as amigas pra dançar. Diz que amor só atrapalha, que quer ser bem sucedida e pronto.

     Cláudio sempre se escondeu embaixo da cama quando a avó chegava. Detestava que lhe apertassem as bochechas e dissessem seu nome em voz alta.

     Jorge passava o dia inteiro com as galinhas no quintal, só elas eram capaz de compreendê-lo.

     Duda anda de boné o dia inteiro, não suporta seu cabelo pixaim.

    Mário detesta ser aplaudido no final das apresentações. Procura se esconder atrás dos outros atores e não suporta ser fotografado.

    Vi o filme "As vantagens de ser invisível" ou em inglês: "The perks of being a wallflower". Traduziram muro de flores por "ser invisível" . Tem coisa mais linda que ser invisível? Não sei se na sociedade americana um muro de flores passa despercebido, mas eu quando vejo um muro de flores perco a fala de tanta admiração.

    Será que é porque eu sou invisível?

    Talvez.

     Charlie tem uma família perfeita, irmãos que o amam, mas passou pelo suicídio de um amigo e pela morte de uma tia que adorava. Logo, quase por acaso, conhece os melhores amigos que alguém poderia encontrar numa escola. Porque tão triste? Tão apático? A revelação é chocante.

    Alguns nascem assim e Charlie é a mais pura flor. Um muro de flores cai na primeira ventania , é lindo e frágil, mas é lindo mais que frágil. 

     Sou professor de alguns Charlie's e que universos maravilhosos! Quantas surpresas se escondem num muro de flores! 

     Eu mesmo fui invisível, e me sinto algumas vezes, sabe aquelas situações que a gente passa o dia dizendo: "bom dia" e ninguém mesmo responde? Isso acontece comigo frequentemente.

     E quando a gente chega num lugar e, se a gente não deixa cair alguma coisa no chão, ninguém repara que chegamos? Sempre fui mestre nisso.

     Quantas vezes minha mãe se assusta com a minha presença: "Nossa, tu estavas aí?".

     No filme, então, julgam "invisíveis" os "adolescentes-flores" : Mary Elizabeth, Sam , Patrick (uma flor mais que exuberante que é chamado de Ninguém) e os outros frequentadores estranhos, lindos e complexos.

     Eu vi o filme e me senti incluído. Poucas vezes assim me sinto. As pessoas rejeitam os que sentem dores, os que adoram o passado, os hiper-sensíveis. Muito melhor ser descolado e estar sempre feliz.

     Muito melhor ser um muro de alvenaria. Esses nunca caem.

     Eu, prefiro ser um muro de flores. Eu prefiro ser invisível. Eu prefiro ser infinito.

     Charlie, me espera aí, tenho que te mostrar o que eu escrevi!