segunda-feira, 19 de novembro de 2012
A DOIDA
- Ela é uma gracinha mas é tão dependente ... (disse ele comendo um bolo de chocolate que o irmão gordo acabara de fazer).
- Por isso que eu não curto namoro. Começa tudo bem, depois é essa palhaçada de "não vivo sem você".
- Por isso que você não curte mulher.
- Nem homem. Gosto mesmo é de videogame, você sabe, mas quando to a fim de dar umas socadas , nada melhor que uma mulherzinha.
- Tu é um grosso. Mas faz bem bolo de chocolate. Ia dar um maridão.
- Tipo você?
- No fundo eu tenho pena da mulher que se apaixona por mim. - O celular vibra, ele odeia barulho de celular, atende com um sorriso sincero - Oi amor, que bom que você está vindo... fala pouco...pouco pra gente se ver... hmmm ... nada, nada acho que é dor de barriga...comi alguma coisa ontem. Hoje nem consegui nada, mas vai passar, é só você chegar e tudo vai passar...então vem...vem logo amor...não liga muito pra não pagar uma fortuna de celular... beijo amor...te amo...
- Se eu soubesse tinha feito o bolo sem açúcar. Ficou todo meloso... queria ser como você.
- Eu também.
- Não sei quem é mais canalha.
- Você claro. Pelo menos eu dou a elas a sensação de felicidade.
- Não iludo ninguém. Se existir Deus acho que ele não te deixa passar pela portinha.
- O portão do paraíso virou uma portinha?
- Sei lá não acredito nessa porra mesmo.
Ela ia demorar a chegar. Dormiu. Foi pro Facebook. Acordou , fez uma macarronada. Comeu de lamber os beiços. O telefone vibra novamente. Ele atende com...bem, ele atende.
- Oooi amor. E aí? Tá almoçando? Comida boa?... é, na estrada é assim mesmo... é...é... não...não melhorei não... ainda agora fiquei uma hora no banheiro amor... to esquisito...não sei... é...sei... sei... vou fazer isso sim... beijo... também.
Vai ao Facebook, escreve uma mensagem: "Júlia chegando, vai ser complicado da gente sair todo mundo. Você sabe como ela é." O outro responde: "To sabendo. A gente deixa pro outro fim de semana. Vocês estão bem?" . " Daquele jeito. Mas a gente vai se acertar". "Torço por você amigo".
O amigo sai do Facebook e passa uma mensagem: "Barril, a xarope da namorada do Sbarro tá vindo aí. Melou o forró, a velha não gosta, vão ficar ouvindo ópera na casa dele o finde inteiro hehe". Barril responde: "Tranqs. Blz.".
Manda alguns emails, dorme, come um biscoitinho, a vinda dela sempre trazia alguma ansiedade. Dorme, ouve música, vai dar uma volta de bicicleta. Olha o relógio. Ela está quase chegando. O vibra toca:
- Oi mô. To muito mal. Mal de verdade. Não saio do banheiro...me avisa quando estiver chegando.
Ela saiu da rodoviária quente como o inferno. Esqueceu de ver como o ônibus era. Era convencional, sem ar. Oito horas de calor infernal. O cabelo dela estava demoníaco. Tudo parecia mais um conto dantesco. Ligou pra ele. Que bom, ele parecia feliz por recebê-la. Então as cismas não eram verdade. Que bom. Ou não. Estava decidida a ir e terminar. Aquilo tudo não fazia sentido. Ela não o sentia mais perto. Estava muito longe, mais do que a distância que os separavam. Tentou se concentrar nos estudos. Mas o balanço a estava deixando enjoada. Preferiu dormir. Dormiu profundamente. Acordou assustada. Ligou, ele sempre foi seu porto seguro, onde ela podia depositar seus medos, suas inseguranças. Sempre pensava que tinha que voltar à análise, fazer isso com um analista. Mas ele parecia tão compreensivo. Foi seu jeito solidário que a encantara. Ele era encantador. Chorava com as suas dores. Mas ultimamente não chorava mais. Ela era só dor. Leu, ouviu música, estudou. Tentou se distrair mas acabou dormindo. Mal podia esperar a hora de vê-´lo esperando na rodoviária. Que terminar que nada. Estavam engatando um relacionamento tão sólido, passando pelas dificuldades. Ele era mais resistente que ela. Ligou. Dor de barriga? O dia inteiro? Melhor lembrar a hora que ia chegar. Não gostava de esperar em rodoviária tarde da noite. Ele estava mais reticente. Cisma. Claro, muito cismada. Meta: Ser mais segura, mais auto-confiante. O beijo na rodoviária selaria esse pacto secreto com ela mesma. Ficou tão feliz de repente que resolveu ligar de novo, brincando.
- Oi, amor... ta complicado aqui...que horas? Não vou não! Ta doida?... você vai até aquele ponto do outro lado da rodoviária e pega o ônibus..ah você sabe? Tá bom... Desligou , acho que ela ficou puta. - Disse ao irmão acabando de comer feijão, batata frita e bife, que ele comera com gosto.
- Coitada. Você podia ir lá.
- Já tá na hora de eu parar de ir em rodoviária buscar, ela já conhece a cidade.
- Fiquei com pena. Liga lá no jogo.
- Ainda tem isso, o jogo.
Viu o jogo inteiro. Meia noite e ela não chegava. Ligou. Caixa Postal. E ligou, e ligou, e ligou. Deveria ter ido busca-la , pensou. Mas ela tinha que aprender a ser menos dependente dele. E se aconteceu alguma coisa? Pensou. Não, não tinha acontecido nada. Ela ia chegar bem mau humorada e eles resolveriam na cama. Mas não podia esquecer da dor de barriga. Porque inventou aquela dor de barriga? Ah é, não estava a fim de transar com ela naquela noite. Uma mentira precisa ter começo, meio e fim e do jeito que ela era, ja tinha comprado um remédio pra ele na estrada. Pensou nela com ternura. Tudo ia dar certo no final. Ele tinha certeza. De novo, Caixa Postal. De novo e de novo. Duas da manhã. Mensagem:
"Estou voltando no mesmo ônibus que vim, seja feliz".
Louca. Mulher louca. E quer me enlouquecer. Acabou. Se ela quer que acabe, acabou.
- To indo dormir. Cadê a Júlia?
- Foi embora.
- Deu ruim.
Nunca mais a viu.
Aquela doida.
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