sábado, 17 de novembro de 2012
CINISMO (no MOTEL)
- Gostou da massagem amor?
- Faz mais um pouquinho...ali.
- Tá, amor.
A massagem... ali..era justamente para começarem um sexo selvagem. Da parte dela. Ele apenas cumpriu o "trivial simples" enquanto ela urrava, unhava, mordia. Uma louca.
- Foi bom amor?
- Você exagerou.
- Como assim?
- Não fui tão bom assim. Na verdade eu sou bem mediano.
- Ah, sei lá acho que é essa coisa que eu sinto por você quando você me possui.
Ele ri de sentir dor no abdômen.
- O que eu falei?
- "Possui". Eu estava falando sobre isso com a Darlene. Possui...
Nova sessão de risadas intermináveis. A face dela fica sombria.
- Acho que alguém está sendo sacaneado aqui.
-Você, é claro.
- Ainda confirma?
- Não tem nada mais cafona que essa expressão "possui". Parece que estamos nos "50 tons de cinza".
- Vai me dizer que você não gosta.
- Nunca li. Um cara que fica amarrando a mulherada, pingando as trouxas com cera quente...
- Vai...fala...
- Esconde um ódio pela mulher... isso é misoginia.
- Quer uma cerveja?
- Bora tomar uma.
Tomam a cerveja, duas, três , na quarta partem para o "segundo tempo". Ela brochou.
- Nossa , que tédio.
- O que foi, Ju?
- Sei lá, parece que você está com uma boneca inflável.
- Será que não é porque você está superestimando o sexo?
- Eu até senti o gosto de plástico na boca.
- Deve ser o sabonete que eu...
-PARA!
- O que foi, meu Deus?
- Para de falar em Deus você não acredita nele.
- Tá , foi só uma expressão.
- Não interessa!
Ela vai até a bolsa, pega uma vela, acende um isqueiro. Ele assiste a todos os movimentos atento. Ela se aproxima com a vela que começa a derreter. Ele não acredita que ela...
-AI!
- Tá sentindo alguma coisa?
- Porra, para de pingar essa merda em mim. AI!
- Tá gostando? Dor.
Não satisfeita ela encosta a vela nele.
- AI! Tá louca! Você me queimou... de verdade.
- Ficou uma marquinha. Pequenininha. Que frescura. Nossa, agora to ficando excitada.
- Tá maluca? Vamos embora.
Ela tira um revólver da bolsa.
- LOUCA!
- Pede pra viver... ou pra morrer...
- Você jamais faria... você faria?
- Você nunca viu uma mulher.... uma pessoa realmente excitada viu?
- Claro! Mas isso.... nunca vi uma arma de perto.
- Mas está vendo agora.
Ela engatilha a arma.
- NÃO!
- Sentimento!!!!!!!!!!! Estou vendo SENTIMENTO!!! Medo? Pavor? Delírio pre-mortem?
- Por favor!!!
- Súplica, você está suplicando.........
- Vira essa arma pra lá...
- Você está chorando.... De um olho só, igual ao Bibelô do Nelson!
- Não faz isso comigo...
- Agora me come...
- Hã?
- Vem...
- Nossa, eu to excitado...
- Vem...
- Vou!
A arma escorregou da mão de Judith e caiu no chão. Um tiro acidental que perfurou a janela do "Flor de Maio". O tiro o excitou ainda mais. Puxões de cabelo, arranhões, xingamentos. Clímax.
- Uau. O que você fez comigo, Ju? AI! Você encostou na queimadura da vela.
- Pra você nunca se esquecer de mim. Se veste e sai.
- O quê?
- Um cínico , mesmo depois que desperta, sempre volta ao ponto inicial.
Renato se vestiu e saiu. Estava amanhecendo. Olhou para a queimadura com um esgar de ternura.
- Onde tem uma farmácia por aqui?
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