sexta-feira, 2 de novembro de 2012

INVISÍVEIS FLORES

        




Pedrinho demorava o máximo para descer para o Recreio nos anos 70, já que não falava mesmo com ninguém e tinha vergonha de falar: "Dá licença", esperava a confusão passar na porta da cantina para comprar Grapete e Mirabel.

      Luciana aceitava comprar a merenda de todas as alunas descoladas da sua turma , só assim elas não enchiam o saco falando da sua meia três quartos furada ou sua camisa meio amarelada , a mesma que usava no ano passado.

       Theo tirava sempre notas abaixo da média para nunca ser citado pelos professores.

     Amanda fica esperando na esquina da casa dos amigos em dia de festa para nunca ser a primeira a chegar. Também não quer ser a última e passa a festa inteira indo ao banheiro.

     Janaína não sai com as amigas pra dançar. Diz que amor só atrapalha, que quer ser bem sucedida e pronto.

     Cláudio sempre se escondeu embaixo da cama quando a avó chegava. Detestava que lhe apertassem as bochechas e dissessem seu nome em voz alta.

     Jorge passava o dia inteiro com as galinhas no quintal, só elas eram capaz de compreendê-lo.

     Duda anda de boné o dia inteiro, não suporta seu cabelo pixaim.

    Mário detesta ser aplaudido no final das apresentações. Procura se esconder atrás dos outros atores e não suporta ser fotografado.

    Vi o filme "As vantagens de ser invisível" ou em inglês: "The perks of being a wallflower". Traduziram muro de flores por "ser invisível" . Tem coisa mais linda que ser invisível? Não sei se na sociedade americana um muro de flores passa despercebido, mas eu quando vejo um muro de flores perco a fala de tanta admiração.

    Será que é porque eu sou invisível?

    Talvez.

     Charlie tem uma família perfeita, irmãos que o amam, mas passou pelo suicídio de um amigo e pela morte de uma tia que adorava. Logo, quase por acaso, conhece os melhores amigos que alguém poderia encontrar numa escola. Porque tão triste? Tão apático? A revelação é chocante.

    Alguns nascem assim e Charlie é a mais pura flor. Um muro de flores cai na primeira ventania , é lindo e frágil, mas é lindo mais que frágil. 

     Sou professor de alguns Charlie's e que universos maravilhosos! Quantas surpresas se escondem num muro de flores! 

     Eu mesmo fui invisível, e me sinto algumas vezes, sabe aquelas situações que a gente passa o dia dizendo: "bom dia" e ninguém mesmo responde? Isso acontece comigo frequentemente.

     E quando a gente chega num lugar e, se a gente não deixa cair alguma coisa no chão, ninguém repara que chegamos? Sempre fui mestre nisso.

     Quantas vezes minha mãe se assusta com a minha presença: "Nossa, tu estavas aí?".

     No filme, então, julgam "invisíveis" os "adolescentes-flores" : Mary Elizabeth, Sam , Patrick (uma flor mais que exuberante que é chamado de Ninguém) e os outros frequentadores estranhos, lindos e complexos.

     Eu vi o filme e me senti incluído. Poucas vezes assim me sinto. As pessoas rejeitam os que sentem dores, os que adoram o passado, os hiper-sensíveis. Muito melhor ser descolado e estar sempre feliz.

     Muito melhor ser um muro de alvenaria. Esses nunca caem.

     Eu, prefiro ser um muro de flores. Eu prefiro ser invisível. Eu prefiro ser infinito.

     Charlie, me espera aí, tenho que te mostrar o que eu escrevi!




Nenhum comentário:

Postar um comentário