segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

..EU ME RENDO...GOSTO TANTO DA MADRUGADA...


Conversando com meu terapeuta (quando é que o analista virou terapeuta? perdi esse bonde. parece que agora não se fala análise de jeito nenhum), mas conversando com meu terapeuta (com quem me disperso tanto emendando um assunto no outro que o enlouqueço. Ele se diverte , mas às vezes acho que ele se irrita).
Então, conversando com ele, me queixei de que estava me sentindo exausto. Que não dormia mais à noite, que só conseguia sentir sono pela manhã e já com o sol alto, mesmo as persianas não ajudando muito a escurecer o quarto.
Fato: A claridade me adormece.
Como ele me parece um ser diurno e dorminhoco , se preocupa com a situação e vê minha agonia. Claro, se eu demontrasse felicidade ele soltaria fogos comigo e aprovaria minha boemia.
Bem, ele disse: Durma na escuridão e acorde com a Luz.
Parece óbvio , mas não é.
Muitas vezes a madrugada representa pra mim um buraco negro, onde, não tendo nada para pensar, acabo me perdendo em culpas, decepções, ódios e medos. E o pior: A falta.
Realmente não é bom deprimir-se de madrugada até porque parece tão fácil dar fim à vida de madrugada. As pessoas se escondem com os gritos, tiros, ninguém sente o gás escapando...(papo mórbido).
Se o SAMU demora horas pra chegar durante o dia, que dirá na madrugada? (o papo continua mórbido).
Matar-me não é o caso.
Quem quer matar-se, mata-se e eu não estari aqui escrevendo sobre isso.
Mas eu gosto tanto da madrugada que agora que estou estabilizado, tranquilo pensando coisas amenas como uma forma menos dolorosa de pagar a conta do celular ou administrar minha fome ancestral para não engordar tudo de novo ou imaginar como seria meu prósximo amor, fico namorando a madrugada, zapeando e vendo furtivamente os excelentes filmes e programas das madrugadas dos dias da semana (os de fins de semana são terríveis). Rascunhando alguma coisa. Começando a ler "O LADRÃO DE RAIOS" que ganhei por engano no amigo oculto (o presente era para uma adolescente mas, o engano serviu para uma excelente leitura, o livro é ótimo), não há hora melhor para ler do que a madrugada. Nem para escrever.
Será que é tão ruim ficar acordado?
HOJE , não estou achando.
Já está amanhecendo, péssima hora para dormir.
O bom é quando o Sol está alto, ligo o ar-condicionado no máximo e , em sonhos, espero a melhor hora do dia chegar: o final da tarde.
Morfeu, dá um tempo.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

QUASE FIM DO ANO

Muita coisa aconteceu.
Ou quase nada.
Só vou saber disso quando fizer um inventário de vários anos. Coisa que nunca faço.
Na verdade eu nem sei direito o que eu fiz nos anos. Eu me situo nos anos pelos meus amores e pelos meus trabalhos. Que nunca são muitos.
Muitas são as dores, as decepções, as gargalhadas, as ironias, as saudades.
Trabalho pouco e amo pouco, ou quase nada.
É por isso que fico perdido achando que vivi pouco também.
Viver é o que se sente. Não é?
É o acúmulo de gargalhadas,de beijos, de saudades, de frustrações, de abandonos, de raivas e raivinhas, de estímulos e sensações.
Não é quanto a gente ganha ou quem está na nossa cama.
O que a gente É?
Tudo isso.
Fiz um concurso, fui bem. Sou 7,5.
Fiz um trabalho, não tão bem. Sou 5,0.
Tive umas duas tentativas frustradíssimas de chamar alguém de "meu amor". Nota 4,0.
Média... processando... 5,5? Sim, esse ano fui um 5,5.
Ou fui um 289 gargalhadas, milhares de risadas, 100 litros de lágrimas, 800 mililitros de suspiros, 130 quilômetros dançados, 300 noites maldormidas, 65 noites maravilhosas, dez brochadas (por alto), centenas de ereções, algumas fugas, dez mil tropeços... Como se mede?
Uma gargalhada deveria valer o ano inteiro. Mas não me lembro de nenhuma delas. Nem me lembro precisamente de nenhum choro. Mas sim, as brochadas eu lembro. De cada uma delas. Sempre muito engraçadas, sempre com muito humor. Uma brochada e uma gargalhada, sempre.
Mas quando eu brocho na vida... aí não.
Saio desse ano levando a vontade de bagunçar todo um coreto.
Mudar absolutamente tudo.
Mas é sempre assim... planos de mudanças. Reticências.
Esse Natal vai ser diferente: Sempre o mesmo Peru, sempre a mesma gula desenfreada e parentes. Sempre os parentes entre parênteses.
Reveillon vai ser o melhor de todos: A cor certa, o ritual certo, a festa certa, a frase certa. Mas na primeira dificuldade...esqueci a frase.
E aí, faço o quê?
Perco a esperança?
Não.
Levanto a cabeça e vou em frente.
Quase fim do ano e não penso diferente.
Mas vai ser diferente.
"Pluct-plact-zum!
Pode partir sem problema algum.
Boa Viagem!"

domingo, 14 de março de 2010

DIVÃ



"Se tive problemas nessa vida, não foi por falta de felicidade"

E o sorriso de Lilia Cabral, a Mercedes do filme, inunda a tela no final.

Martha Medeiros, a autora da peça, não minimiza os problemas. Ela os engrandece, ela os abrilhanta. Para que servem os problemas senão para enriquecer os nossos roteiros?

E vamos sendo assim, ricos na vida. Vendo Mercedes se conhecendo, a gente vai se reconhecendo. Na verdade, a gente só se reconhece se já passou dos trinta, ainda não dá pra saber que uma traiçãozinha do marido não vai acabar com o casamento, ainda não dá pra saber que a gente não sofre só quando se perde o amor e que tem coisas mais divertidas que amar. Mais do que isso. O amor não tem a menor importância quando a gente descobre que se perdeu da gente mesmo.

O trunfo do filme é o texto em que foi baseado, além da indescritível atuação de Lília Cabral e a sinceridade de Alexandra Richter, que faz a melhor amiga. As duas batem um bolão. Aliás, quem não melhora com Lilia Cabral do lado? Basta ver na novela Viver a Vida, quem contracena com ela acaba ficando no mínimo bom. Ainda vamos nos encontrar no palco, com certeza. E... hã... bem...

Eu, que sempre escrevo muito, estou bastante sem palavras.

Pra que falar, quando a gente pode pensar, arrumar o travesseiro, ligar o ar condicionado, apagar a luz e dormir... amando muito quem a gente se tornou , abraçando muito, acarinhando, porque se foi comigo que eu cheguei nesse mundo cheio de vontade de viver, é comigo que eu vou me bastar.

E o que vier será lucro.

E eu sou beeem capitalista.

sexta-feira, 12 de março de 2010

QUEM QUER SER UM MILIONARIO?



São tantas horas da madrugada e eu aqui vendo filme velho.
Sou do tempo que um filme demorava uns dois anos pra chegar no Brasil.
Até mais...
Daí, na minha época de faculdade eles começaram a chegar a tempo da gente julgar antes do Oscar. E ficou tudo certo.
Mas um filme do ano passado, já e falado assim pelos camaradas adolescentes:

- Ahhh tipo assim, aquele filme do ano passado? Tipo...filme antigo?

Tá tudo tão rápido né?

E o rio vai sempre em frente... parece que estão aceitando ele assim agora.

-Ah, se o rio vai sempre pra frente... pra que voltar atrás?

Como assim? Eu crio o meu rio.

O Jamal, personagem do filme "Quem quer ser o Milionário" viu a menina ali, na chuva, quase sucumbindo ao frio e não teve dúvidas...

- Vem dormir com a gente.

Dali, eles nunca mais se separaram.

Quer dizer, eles se separaram, mas o amor incondicional de Jamal estava ali, a não desistir de estar com aquela menina.

O rio corria em frente. Ele seguia com o rio. Mas o desenho do rio dele era bem dele. Um desenho cheio de curvas, de cachoeiras, de retornos...

A dificuldade dele era justamente essa: Seguir o rio que todo mundo insistia em traçar para ele.

Você é um Slumdog (favelado.... numa tradução um tanto o quanto tosca) . Então comporte-se como um Slumdog! Seja bandido! Não acredite na justiça! Siga o rio!

O irmão, Salim, seguiu em frente acreditando no que acreditavam. E foi um grande navegador daquele rio. Um bravo. Um corajoso, capaz de enfrentar os maiores bandidos da região. E nem tão corajoso ao se tornar um deles. Mas , era apenas um Slumdog, não dava pra ser o chefe, só o capataz.

Jamal não. Jamal traçou o seu rio, e seu rio seguia em direção a Latika. Ela era o seu mar. E seguiu aquele rio, e o mudou de curso, e voltou a ele. E voltou ao lugar de partida, e deu a volta por uma montanha , pelo Taj Mahal, e acabou num programa de televisão. E deu de cara com um Slumdog poderoso, um apresentador de televisão, que não seguiu o rio e que não permitia que ninguém fosse desbravador como ele.

Mas Jamal, indiferente à competição, ele só queria que Latika o visse, já que ele não tinha a menor idéia de como encontra-la, foi até o fim. E as respostas só dependiam do seu conhecimento empírico. Não precisava ser erudito, não precisava ser acadêmico, nem um gênio. O acaso estava ao seu lado. Ou Deus. Ou a sorte. Ou o destino.

Perguntas:

Existe acaso? Dizem que não. Os cientistas dizem que sim. Mas alguns cientistas já estão dizendo que não. Confuso.

Existe sorte? Acho que todo mundo concorda que a sorte existe. Mas não dá pra destrinchar cientificamente o que é ela.

Existe destino? Concordo com ele. Mas acho que podemos alterá-lo se a gente o conhece antes. Conhecer o destino? Confuso.

Existe Deus? Adoro acreditar nisso. Mas quem não acreditar, boa sorte, deve ser legal uma viagem sozinho nesse trem.

Jamal definitivamente não seguia só. Desde o início o roteirista de sua vida já estava dando as respostas. E ele contou com a ...sorte?... Deus?... ao chutar a ultima resposta.

Ele virou um milionário... (a quem interessar possa , vinte milhões de rupias equivale a pouco mais que 600 mil reais) Mas ele nao estava nem aí pra isso. Foi à estação de trem esperar Latika, às 17 horas

17. No tarô, A Estrela. Soube hoje pelo meu terapeuta e depois confirmado pelo blog CORPOETICO , que a origem da palavra desejo deriva da palavra grego desidera, que , por sua vez, deriva de sidus que é mais usada no plural, sidera, ou seja, um conjunto de estrelas).

E entre trilhões de estrelas, ele escolheu Latika.

Mas... quando se alcança um desejo, milhões de outros precisam ser satisfeitos. A satisfação de um desejo nada mais é do que o início de uma nova caminhada. É por isso que precisamos curtir a viagem.

E a viagem de Jamal é uma das mais fantásticas que assisti no cinema.

Não é nenhuma trajetória que ninguém tenha visto, não é nada de inédito. Mas como é encantadoramente bem contada! Danny Boyle, o diretor, consegue fazer o flash back funcionar com uma precisão milimétrica. Os atores, principalmente as crianças , são tão bem dirigidos que é quase inacreditavel que elas não estejam improvisando.

Eu quero ser um milionário.

Aliás, já sou. Não sabiam?

Mas dinheiro não empresto, ensino você a traçar o seu rio.

Que não vai só pra frente não.

Ele vai para onde você quiser.

quarta-feira, 10 de março de 2010

QUERO ESCREVER! QUERO ESCREVER!!!



Amanheci assim, querendo escrever.
E escrevo ao léu, para os que buscam respostas...mas ele escreve pra mim? O que isso quer dizer?
Aos que tentam decifrar minhas intenções, eu as revelo:
Escrevo para os sem sentido.
Os que se olham no espelho a procura de respostas.
Os que não têm espelho (mesmo que não exista mais esse acento circunflexo, eu o coloco, aqui é o meu mundo).
Escrevo para mim e para você que me lê.
E vou escrevendo, escrevendo...

Porque existe orkut?
Desde que o orkut inaugurou sua presença em minhas terras tupiniquins, nada mais foi o mesmo. Investigo, investigo, vasculho, e mesmo assim não chego a lugar nenhum.
Hoje mesmo eu li em algum lugar...
"Eis que a paixão arde como fogo...Eis que anseio a gélida água para o fim do meu tormento."
Talvez tenha sido um dos versos mais bonitos que li nos ultimos tempos. Pela sonoridade, pela intenção e pela imagem... e foi um cara de 19 anos que escreveu. Procurei esses versos em algum lugar e...foi ele mesmo quem escreveu.
Daí fiquei pensando... alguem poderia escrever isso pra mim. Porque eu ofereceria mais lenha para que a paixão ardesse mais e mais.
Há alguma coisa mais dolorida e maravilhosa do que o fogo que arde sem se ver?

Não , não foi para mim. Se alguém nutrisse tamanha paixão por mim eu saberia.
Ou não?

Fui ver Coração Louco - "Crazy Heart" - aliás os títulos brasileiros não expressam MESMO o que os americanos querem dizer em seus títulos. Deveriam deixar os títulos em inglês mesmo. Quem quiser se vire e traduza. Assistir Coração Louco é muito diferente de assistir Crazy Heart. Jeff Bridges é um alcoólatra em fim de carreira, dirigindo quilômetros sobre hemorróidas doloridas para cantar em "bibocas" no interior dos Estados Unidos. Nada de muito importante acontece no filme. Vemos a trajetória, o caminho, a dor, e a redenção. Sem catarses, sem efeitos. Mostra. A gente vê, se identifica, ou não , admira grandes atores em cena, uma direção impecável, um roteiro que não é exibicionista e uma fotografia americaníssima. Bonito, tocante. Gosto muito.

Mas também adoro AVATAR.

Estou atrasadíssimo. Não consigo programar meu dia. Ele parece muito longo e também muito curto quando as coisas começam a acontecer.

Tenho muita coisa a escrever e nada a dizer, realmente.

Porque falar de BBB eu não falo mais.

"Olha, está chovendo na roseira..."

terça-feira, 2 de março de 2010

FOI APENAS UM SONHO - Reféns da realidade




Será que tem jeito da gente fugir da estrada em que nos colocaram?
Será que existe uma forma de fazer a nossa existência ser extraordinária?
Será que há absolvição para quem quer ser revolucionário?

A impressão que tenho , vendo esse filme, mesmo que ele se passe nos anos 50, mesmo que seja numa pequena comunidade americana, onde segundo seus próprios cronistas, nada, absolutamente nada acontece, é que toda vez que tentamos seguir um atalho, toda vez que experimentamos algo novo, acontecem coisas e mais coisas que vão nos perseguindo. Como um eterno Grilo Falante que vai perguntando: Porque? Porque? Porque? Ou aquele burrico do Shrek: Ainda está longe? Ja estamos chegando?
Porque não deixam em paz as pessoas que querem seguir uma estrada diferente?

Assim que Frank (Leonardo di Caprio) e April (Kate Winslet) comunicam aos amigos e colegas de trabalho que vão largar a vidinha pacata e perfeita que viviam na sonolenta "Revolutionary Road,115", vendendo tudo o que têm para ir a Paris, tudo muda ao redor deles. A tristeza que toma conta do mundo ao redor deles é contagiante. Até eu fiquei triste. A inveja de ver aquele casal simplesmente indo viver o incerto com alegria e esperança, faz todos em volta deles entristecerem. Todos queriam estar no lugar deles. Ninguém ousaria estar no lugar deles. Todos duvidam daquele sonho e ao mesmo tempo todos se perguntam: "Mas porque eles estão fazendo isso? Já não são bonitos, bem sucedidos, interessantes?".

Porque a busca incomoda tanto?

Meu pai fez isso. Tinha um bom emprego, estava estabilizado, nunca tinha ajudado tanto os filhos, e , de repente, pensou: Não quero mais isso aqui. Quero ir além. Quero ter mais. Eu posso ter mais. Não pensou em nada, nem ninguém. E desapareceu. Todos questionam a atitude. Todos recriminam o ato. Mas ninguém avalia o que é se sentir medíocre. Ninguém entende a insatisfação. Ninguém tolera o que vai em direção ao vazio em busca do desconhecido.

April estava se sentindo sem motivação, sem brilho na vida. Num grupo de teatro falido, num casamento de cores pastéis, ela se lembra de uma foto que um dia o marido lhe mostrara. Era uma foto dele , enquanto servia no Exército, em Paris. E ele disse: "Tudo é extraordinário lá. Tudo é diferente". Mesmo morando em Revolutionary Road, esse endereço fica em Connecticut onde tudo é ordinário. Depois de uma briga onde ele parece desprezar os esforços que ela faz em participar de um grupo de teatro amador (mas na realidade ele a está incentivando dizendo que ela é muito melhor que aquele grupo insosso), ela se arruma , fica linda e diz a eles: Vamos largar tudo e vamos para Paris. Ele tenta convence-la racionalmente, mas ela lembra a ele do "pacto" que fizeram de nunca ser um casal comum, patético como os demais, o que acabaram se tornando. Frank, ainda com ínfima capacidade de sonhar, se entrega ao projeto da esposa e assim eles vão se articulando e desmontando o mundo a sua volta. O único que parece estar de acordo é o louco, filho da sra Givings (Kathy Bates), que se identifica plenamente quando Frank diz, que no fundo,eles querem fugir do vazio inexorável que os cercava.

Aliás, o único que seria capaz de entender essa expressão era o lunático.

Daí, então a história vai ganhando força e as contradições vão se avolumando, até que ela engravida, e aí...

Leonardo di Caprio tem nesse filme, na minha opinião, sua melhor atuação. Gosto ainda mais que "O Aviador". Kate Winslet, sublime. Os dois estão numa sintonia incrível, perfeitos nos gritos e silêncios desse casal. O casal vizinho interpretado por David Harbour e Milly Hahn são destaque. Michael Shannon dá um banho como o matemático que ficou louco, filho de Kathy Bates. O elenco todo é primoroso. Irrepreensível.

A crítica detonou. Porque a força do livro é racionalizada e esteticizada demais por Sam Mendes. Como não li o livro, a direção me parece correta. Não acrescenta muito ao roteiro, nem atrapalha. É apenas uma direção correta com um deslize no final: O excesso de black outs (odeio) para costurar as cenas finais. Mas a história, a fotografia, a trilha, e sobremaneira os atores são tão maravilhosos que esqueço e embarco de vez nessa história.

E me pergunto: Vale a pena ir em busca do sonho quando a realidade nos seduz com conforto, tranqulidade e paz?

Ai, ai. Querem saber a verdade? Eu não iria para Paris.

Embora esteja vivendo como se lá estivesse...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

JOGANDO GENTEVILLE


É o jogo mais bacana do mercado.
Muito bom.
Aprendi ontem com uma pessoa muuuuuuuuuuito legal, muuuuuuuuuuuito gente boa, muuuuuuuuuuito civilizada e muuuuuuuuuuito bem resolvida.

É assim:

Cria um personagem. Daí vc pode escolher um personagem que vem no jogo, ou criar um outro personagem, sabe, aquele que vc idealiza, que vc deseja.
Se vc escolher o que vem no jogo, vem , na coluna da esquerda uma relação com vários personagens. Dos gordos aos magros, dos inteligentes aos medíocres. Basta escolher, a oferta é variada.

Daí cria um cenário ideal para um encontro.

Daí vc clica num dos personagens da esquerda ou no personagem idealizado e escolhe as opções:

SAIR

CONVERSAR

IGNORAR

SACANEAR

Se vc clica na opção sair. Vc vai até o cenário ideal, janta, se o local for de jantar, dança se o local for de dançar, bebe se o local for de beber e depois aparecem as opções:

Despedir-se sem mais delongas.

Propor namoro.

Transar sem compromisso.

Transar pra depois ver qualé.

Dar um perdido porque apareceu personagem mais interessante no cenário, dizendo que encontrou um velho(a) amigo(a).

Se vc clica a opção conversar aparecem as opções:

Ficar no telefone horas falando de coisas da vida, desligar e ficar na mesma.

Conversar sobre coisas frias, depois mornas, depois quentes, e se masturbarem mutuamente , desligar e ficar na mesma.

Combinar para conversar no local criado, comer, beber, fofocar, zoar as pessoas, voltar pra casa e ficar na mesma.

Desabafar sobre um amor mal sucedido, chorar , desligar e ficar na mesma.

Se vc clica a opção ignorar...

Vc ignora. Porque clicou no personagem então?

Se vc clica na opção sacanear aparecem as opções:

Sair, fingir que vai namorar e depois sumir.

Ficar prometendo todo dia que vai sair enquanto faz teste com oturas pessoas e se não aparecer coisa melhor, sai com a pessoa.

Fazer teste de popularidade , usando todas as armas para seduzir a pessoa, depois dizer que esta em outra relação, uma relação falida, transar, sair várias vezes, transar e depois dizer que foram muito bons aqueles momentos mas a relação melhorou demais.

Seduzir a pessoa e dizer que nao esta no momento certo, fingir que não consegue resistir à pessoa, chorar e depois dar o telefone errado e sumir.

Seduzir a pessoa, fazer um olhar de apaixonado, chorar e dizer no final que ela é uma pessoa maravilhosa , que tudo nela é perfeito, que ela é a pessoa que sempre sonhou, mas que não a merece... "oh como sou infeliz".

É um jogo barato, de enorme circulação. Tá todo mundo jogando.

Experimentem!!!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um dia...


O menino e a menina dormiam com o pai, que lia uma história de gatos que correm atrás de novelos.
Entre uma linha e outra, explicava que não ia mais morar com eles. E que a escolha tinha sido da sua mãe. Ela é que não o queria mais. Mas ele os queria bem demais. E prometeu: Um dia vocês vão morar comigo.
O menino e a menina não entenderam bem a história.
Era a história do gato que corrioa atrás do novelo ou era a história da mãe malvada que mata o pai?
E dormiram.
Pé, ante pé, o pai saiu, para não acordar os filhos.
Olhou para os anjos que dormiam no beliche e chorou.
Não queria ir embora.
Mas foi.
O menino não sabe com que a menina sonhou.
A menina não acreditou na história da mãe malvada. Só queria saber se o gato ia pegar o novelo.
O menino não sonhou. O menino não pensou em nada. O menino dormiu querendo acordar logo e ver que tudo não passou de uma historinha, e as historinhas lidas pelo pai sempre eram tão lindas.
O menino acordou e disparou.
Correu para o quarto do pai.
Sentiu seu cheiro de creme de barbear em todos os cantos.
ELE AINDA ESTAVA LÁ.
Mas quando abriu o armário.. ele estava vazio. Só um terno preto fedendo a naftalina.
Ele quis gritar, ele quis se desesperar, ele quis chamar o pai.
E ele gritou, e ele se desesperou e ele chamou pelo pai.
A mulher suarenta que cuidava dele o abraçou e disse:
- Calma, ele já volta!
E ele nunca mais voltou.

De repente, um barulho de chave. A mãe não abria a porta assim.
Era o pai que voltava.
E ele nunca mais voltou.

PERDAS



Foram tantas...
A barca e a ponte que não precisei mais pegar...
A estrada tarde da noite, na chuva, que não precisei mais ir...
A noite cheia de plânctons e estrelas que não vou ver mais...
Um quixote, na mesinha de cabeceira que ficou lá... ou não está mais lá...
A visão da Avenida Atlântica, calma, à noite, com ruídos de travestis sonolentos que não mais verei...
Os coelhos e patos subindo um morrinho... será que ainda existe aquele morrinho?
Tanajuras num morro fazendo um barulho de helicóptero...
Tantas perdas.
Vocês todos estão lá.
Não morreram.
Todas essas lembranças ficam lá.
E daí fico , nessa manhã chuvosa pensando se realmente perdi.



Ontem fui ver PRECIOUS. Ou PRECIOSA em português.
Um filme que fala sobre perdas, sobre ganhos... é o tal negócio, por onde vemos as coisas?
Pelo lado cheio, ou vazio?
Preciosa perde, perde muito, e ganha , ganha muito.
Ela vence. E ela perde.
Ela perde. E encontra.
Como se pode ter uma visão tão otimista com tanta dor?
Eu me acabei de chorar no cinema.
Foi duro acompanhar a trajetória da heroína.
Mas saí vivo do cinema, vivo para encarar minhas perdas.
E meus encontros.
Não sei em que lado do copo estou.
Mas sei que estou vivo, e preciso, com força, continuar.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010





A menina brincava com um carretel de linha, quando a velha sentou-se a lado dela e começou a contar, assim, como quem fala sobre o tempo ou sobre o nada.
"Era uma vez um homem bom. Trabalhador, honesto. Cumpridor de seus deveres. Um dia ele quis casar, e o pai da pretendente deu a ele como dote um fio, o fio mais fino do mundo e disse a ele:

- Esse , é o amor que minha filha vai ter pelo senhor. Cuidado, porque quando ele se romper, o mundo acaba junto com ele.

O homem, que acreditava muito em amor, em rezas e histórias, pegou o fio e o enrolou cuidadosamente num carretel dourado. A mulher, todo dia, quando acordava, pegava carinhosamente o carretel e desenrolava todo o longo fio e pendurava ali todas as roupas que lavava. O fio era muito fino. Mas muito forte. Ali, pendurava-se casas, castelos, mundos inteiros. E o fino não se rompia. Um dia, o homem que não sabia que a mulher fazia isso, em segredo, e quando viu todas as suas roupas estendidas naquele varal de fina espessura, berrou enfurecido:

- Sua louca! Enrole já esse fio! É isso que você quer? Quer que o seu amor por mim acabe levando o meu mundo inteiro junto com ele?

E o fio, naquele instante se rompeu.
E tudo se foi com ele...
Roupas, casa, jardim, rua, esquina e até a mulher desapareceram como por encanto
A voz do homem também desapareceu.
E o homem ficou ali. Quieto. Se perguntando porque ele não foi junto com o fio."

A menina reclamou.

"Cruzes, que história triste, vó!"

A velha deu de ombros e foi ver a novela.




A roda que traz, é a mesma roda que leva




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


O navio demorou a chegar. Mas chegou.
Por mais que se esforçasse, Ele, o de olhos azuis, não conseguia vê-lo.
Ele , o de olhos azuis, tinha esperado a vida inteira. Sonhado, a vida inteira. Investido dias e noites a fio para que visse, desembarcando, aquele de olhos pretos que estava para chegar.
O de olhos pretos foi o último.
Parecia cansado, parecia surrado. Parecia vivido.
Não era o príncipe que imaginava ser. Nem o santo. Mas era quem ele sempre sonhara.
Abriu sua casa para ele.
Comeram e beberam. Amaram. Sonharam uma vida juntos.
Em uma noite navegaram por todos os mares, voaram alturas.
De dia, o de olhos azuis acordou. E o de olhos pretos não estava mais lá.
Era um ser de olhos vermelhos. Estranho. Incômodo. Não só não era um príncipe, mas parecia um demônio. Mais parecia ...
O de olhos azuis se assustou. No seu susto ele jogou todas a substâncias possíveis e imagináveis para destruir o monstro. Indiferença. Ódio. Raiva de todos os seus antepassados.
E quando gritou, quando berrou, quando vociferou fogo e ácido, ele viu que estava sonhando.
Não era sonho a chegada. Nem os sonhos. Nem os planos.
Os olhos vermelhos sim, eram o pesadelo.
Os olhos vermelhos eram o medo de que aquilo tudo não fosse verdade.
O de olhos pretos se asustou. Quis correr, fugir daquela pessoa que parecia possessa.
- Seus olhos ficaram vermelhos! - O de olhos pretos disse.
- Os meus... também? - Perguntou o de olhos azuis ainda babando ódio.
- Deita aqui no meu colo. Deixa eu cantar pra gente sonhar de novo...
Apesar do medo, o de olhos azuis deitou e dormiu mais um pouco...
Eles viveram, dormiram pesadelos, acordaram sonhos, dormiram música, acordaram trevas, mas nunca, nunca mais pensaram em se deixar.
Porque descobriram que era só olhar nos olhos para o medo se acabar.
(André Pimentel)




... e enquanto ele espera, ele produz, ele escreve, ele vive.
E a aliança continua.
Até um dia, quando o tempo passar.