domingo, 14 de março de 2010

DIVÃ



"Se tive problemas nessa vida, não foi por falta de felicidade"

E o sorriso de Lilia Cabral, a Mercedes do filme, inunda a tela no final.

Martha Medeiros, a autora da peça, não minimiza os problemas. Ela os engrandece, ela os abrilhanta. Para que servem os problemas senão para enriquecer os nossos roteiros?

E vamos sendo assim, ricos na vida. Vendo Mercedes se conhecendo, a gente vai se reconhecendo. Na verdade, a gente só se reconhece se já passou dos trinta, ainda não dá pra saber que uma traiçãozinha do marido não vai acabar com o casamento, ainda não dá pra saber que a gente não sofre só quando se perde o amor e que tem coisas mais divertidas que amar. Mais do que isso. O amor não tem a menor importância quando a gente descobre que se perdeu da gente mesmo.

O trunfo do filme é o texto em que foi baseado, além da indescritível atuação de Lília Cabral e a sinceridade de Alexandra Richter, que faz a melhor amiga. As duas batem um bolão. Aliás, quem não melhora com Lilia Cabral do lado? Basta ver na novela Viver a Vida, quem contracena com ela acaba ficando no mínimo bom. Ainda vamos nos encontrar no palco, com certeza. E... hã... bem...

Eu, que sempre escrevo muito, estou bastante sem palavras.

Pra que falar, quando a gente pode pensar, arrumar o travesseiro, ligar o ar condicionado, apagar a luz e dormir... amando muito quem a gente se tornou , abraçando muito, acarinhando, porque se foi comigo que eu cheguei nesse mundo cheio de vontade de viver, é comigo que eu vou me bastar.

E o que vier será lucro.

E eu sou beeem capitalista.

sexta-feira, 12 de março de 2010

QUEM QUER SER UM MILIONARIO?



São tantas horas da madrugada e eu aqui vendo filme velho.
Sou do tempo que um filme demorava uns dois anos pra chegar no Brasil.
Até mais...
Daí, na minha época de faculdade eles começaram a chegar a tempo da gente julgar antes do Oscar. E ficou tudo certo.
Mas um filme do ano passado, já e falado assim pelos camaradas adolescentes:

- Ahhh tipo assim, aquele filme do ano passado? Tipo...filme antigo?

Tá tudo tão rápido né?

E o rio vai sempre em frente... parece que estão aceitando ele assim agora.

-Ah, se o rio vai sempre pra frente... pra que voltar atrás?

Como assim? Eu crio o meu rio.

O Jamal, personagem do filme "Quem quer ser o Milionário" viu a menina ali, na chuva, quase sucumbindo ao frio e não teve dúvidas...

- Vem dormir com a gente.

Dali, eles nunca mais se separaram.

Quer dizer, eles se separaram, mas o amor incondicional de Jamal estava ali, a não desistir de estar com aquela menina.

O rio corria em frente. Ele seguia com o rio. Mas o desenho do rio dele era bem dele. Um desenho cheio de curvas, de cachoeiras, de retornos...

A dificuldade dele era justamente essa: Seguir o rio que todo mundo insistia em traçar para ele.

Você é um Slumdog (favelado.... numa tradução um tanto o quanto tosca) . Então comporte-se como um Slumdog! Seja bandido! Não acredite na justiça! Siga o rio!

O irmão, Salim, seguiu em frente acreditando no que acreditavam. E foi um grande navegador daquele rio. Um bravo. Um corajoso, capaz de enfrentar os maiores bandidos da região. E nem tão corajoso ao se tornar um deles. Mas , era apenas um Slumdog, não dava pra ser o chefe, só o capataz.

Jamal não. Jamal traçou o seu rio, e seu rio seguia em direção a Latika. Ela era o seu mar. E seguiu aquele rio, e o mudou de curso, e voltou a ele. E voltou ao lugar de partida, e deu a volta por uma montanha , pelo Taj Mahal, e acabou num programa de televisão. E deu de cara com um Slumdog poderoso, um apresentador de televisão, que não seguiu o rio e que não permitia que ninguém fosse desbravador como ele.

Mas Jamal, indiferente à competição, ele só queria que Latika o visse, já que ele não tinha a menor idéia de como encontra-la, foi até o fim. E as respostas só dependiam do seu conhecimento empírico. Não precisava ser erudito, não precisava ser acadêmico, nem um gênio. O acaso estava ao seu lado. Ou Deus. Ou a sorte. Ou o destino.

Perguntas:

Existe acaso? Dizem que não. Os cientistas dizem que sim. Mas alguns cientistas já estão dizendo que não. Confuso.

Existe sorte? Acho que todo mundo concorda que a sorte existe. Mas não dá pra destrinchar cientificamente o que é ela.

Existe destino? Concordo com ele. Mas acho que podemos alterá-lo se a gente o conhece antes. Conhecer o destino? Confuso.

Existe Deus? Adoro acreditar nisso. Mas quem não acreditar, boa sorte, deve ser legal uma viagem sozinho nesse trem.

Jamal definitivamente não seguia só. Desde o início o roteirista de sua vida já estava dando as respostas. E ele contou com a ...sorte?... Deus?... ao chutar a ultima resposta.

Ele virou um milionário... (a quem interessar possa , vinte milhões de rupias equivale a pouco mais que 600 mil reais) Mas ele nao estava nem aí pra isso. Foi à estação de trem esperar Latika, às 17 horas

17. No tarô, A Estrela. Soube hoje pelo meu terapeuta e depois confirmado pelo blog CORPOETICO , que a origem da palavra desejo deriva da palavra grego desidera, que , por sua vez, deriva de sidus que é mais usada no plural, sidera, ou seja, um conjunto de estrelas).

E entre trilhões de estrelas, ele escolheu Latika.

Mas... quando se alcança um desejo, milhões de outros precisam ser satisfeitos. A satisfação de um desejo nada mais é do que o início de uma nova caminhada. É por isso que precisamos curtir a viagem.

E a viagem de Jamal é uma das mais fantásticas que assisti no cinema.

Não é nenhuma trajetória que ninguém tenha visto, não é nada de inédito. Mas como é encantadoramente bem contada! Danny Boyle, o diretor, consegue fazer o flash back funcionar com uma precisão milimétrica. Os atores, principalmente as crianças , são tão bem dirigidos que é quase inacreditavel que elas não estejam improvisando.

Eu quero ser um milionário.

Aliás, já sou. Não sabiam?

Mas dinheiro não empresto, ensino você a traçar o seu rio.

Que não vai só pra frente não.

Ele vai para onde você quiser.

quarta-feira, 10 de março de 2010

QUERO ESCREVER! QUERO ESCREVER!!!



Amanheci assim, querendo escrever.
E escrevo ao léu, para os que buscam respostas...mas ele escreve pra mim? O que isso quer dizer?
Aos que tentam decifrar minhas intenções, eu as revelo:
Escrevo para os sem sentido.
Os que se olham no espelho a procura de respostas.
Os que não têm espelho (mesmo que não exista mais esse acento circunflexo, eu o coloco, aqui é o meu mundo).
Escrevo para mim e para você que me lê.
E vou escrevendo, escrevendo...

Porque existe orkut?
Desde que o orkut inaugurou sua presença em minhas terras tupiniquins, nada mais foi o mesmo. Investigo, investigo, vasculho, e mesmo assim não chego a lugar nenhum.
Hoje mesmo eu li em algum lugar...
"Eis que a paixão arde como fogo...Eis que anseio a gélida água para o fim do meu tormento."
Talvez tenha sido um dos versos mais bonitos que li nos ultimos tempos. Pela sonoridade, pela intenção e pela imagem... e foi um cara de 19 anos que escreveu. Procurei esses versos em algum lugar e...foi ele mesmo quem escreveu.
Daí fiquei pensando... alguem poderia escrever isso pra mim. Porque eu ofereceria mais lenha para que a paixão ardesse mais e mais.
Há alguma coisa mais dolorida e maravilhosa do que o fogo que arde sem se ver?

Não , não foi para mim. Se alguém nutrisse tamanha paixão por mim eu saberia.
Ou não?

Fui ver Coração Louco - "Crazy Heart" - aliás os títulos brasileiros não expressam MESMO o que os americanos querem dizer em seus títulos. Deveriam deixar os títulos em inglês mesmo. Quem quiser se vire e traduza. Assistir Coração Louco é muito diferente de assistir Crazy Heart. Jeff Bridges é um alcoólatra em fim de carreira, dirigindo quilômetros sobre hemorróidas doloridas para cantar em "bibocas" no interior dos Estados Unidos. Nada de muito importante acontece no filme. Vemos a trajetória, o caminho, a dor, e a redenção. Sem catarses, sem efeitos. Mostra. A gente vê, se identifica, ou não , admira grandes atores em cena, uma direção impecável, um roteiro que não é exibicionista e uma fotografia americaníssima. Bonito, tocante. Gosto muito.

Mas também adoro AVATAR.

Estou atrasadíssimo. Não consigo programar meu dia. Ele parece muito longo e também muito curto quando as coisas começam a acontecer.

Tenho muita coisa a escrever e nada a dizer, realmente.

Porque falar de BBB eu não falo mais.

"Olha, está chovendo na roseira..."

terça-feira, 2 de março de 2010

FOI APENAS UM SONHO - Reféns da realidade




Será que tem jeito da gente fugir da estrada em que nos colocaram?
Será que existe uma forma de fazer a nossa existência ser extraordinária?
Será que há absolvição para quem quer ser revolucionário?

A impressão que tenho , vendo esse filme, mesmo que ele se passe nos anos 50, mesmo que seja numa pequena comunidade americana, onde segundo seus próprios cronistas, nada, absolutamente nada acontece, é que toda vez que tentamos seguir um atalho, toda vez que experimentamos algo novo, acontecem coisas e mais coisas que vão nos perseguindo. Como um eterno Grilo Falante que vai perguntando: Porque? Porque? Porque? Ou aquele burrico do Shrek: Ainda está longe? Ja estamos chegando?
Porque não deixam em paz as pessoas que querem seguir uma estrada diferente?

Assim que Frank (Leonardo di Caprio) e April (Kate Winslet) comunicam aos amigos e colegas de trabalho que vão largar a vidinha pacata e perfeita que viviam na sonolenta "Revolutionary Road,115", vendendo tudo o que têm para ir a Paris, tudo muda ao redor deles. A tristeza que toma conta do mundo ao redor deles é contagiante. Até eu fiquei triste. A inveja de ver aquele casal simplesmente indo viver o incerto com alegria e esperança, faz todos em volta deles entristecerem. Todos queriam estar no lugar deles. Ninguém ousaria estar no lugar deles. Todos duvidam daquele sonho e ao mesmo tempo todos se perguntam: "Mas porque eles estão fazendo isso? Já não são bonitos, bem sucedidos, interessantes?".

Porque a busca incomoda tanto?

Meu pai fez isso. Tinha um bom emprego, estava estabilizado, nunca tinha ajudado tanto os filhos, e , de repente, pensou: Não quero mais isso aqui. Quero ir além. Quero ter mais. Eu posso ter mais. Não pensou em nada, nem ninguém. E desapareceu. Todos questionam a atitude. Todos recriminam o ato. Mas ninguém avalia o que é se sentir medíocre. Ninguém entende a insatisfação. Ninguém tolera o que vai em direção ao vazio em busca do desconhecido.

April estava se sentindo sem motivação, sem brilho na vida. Num grupo de teatro falido, num casamento de cores pastéis, ela se lembra de uma foto que um dia o marido lhe mostrara. Era uma foto dele , enquanto servia no Exército, em Paris. E ele disse: "Tudo é extraordinário lá. Tudo é diferente". Mesmo morando em Revolutionary Road, esse endereço fica em Connecticut onde tudo é ordinário. Depois de uma briga onde ele parece desprezar os esforços que ela faz em participar de um grupo de teatro amador (mas na realidade ele a está incentivando dizendo que ela é muito melhor que aquele grupo insosso), ela se arruma , fica linda e diz a eles: Vamos largar tudo e vamos para Paris. Ele tenta convence-la racionalmente, mas ela lembra a ele do "pacto" que fizeram de nunca ser um casal comum, patético como os demais, o que acabaram se tornando. Frank, ainda com ínfima capacidade de sonhar, se entrega ao projeto da esposa e assim eles vão se articulando e desmontando o mundo a sua volta. O único que parece estar de acordo é o louco, filho da sra Givings (Kathy Bates), que se identifica plenamente quando Frank diz, que no fundo,eles querem fugir do vazio inexorável que os cercava.

Aliás, o único que seria capaz de entender essa expressão era o lunático.

Daí, então a história vai ganhando força e as contradições vão se avolumando, até que ela engravida, e aí...

Leonardo di Caprio tem nesse filme, na minha opinião, sua melhor atuação. Gosto ainda mais que "O Aviador". Kate Winslet, sublime. Os dois estão numa sintonia incrível, perfeitos nos gritos e silêncios desse casal. O casal vizinho interpretado por David Harbour e Milly Hahn são destaque. Michael Shannon dá um banho como o matemático que ficou louco, filho de Kathy Bates. O elenco todo é primoroso. Irrepreensível.

A crítica detonou. Porque a força do livro é racionalizada e esteticizada demais por Sam Mendes. Como não li o livro, a direção me parece correta. Não acrescenta muito ao roteiro, nem atrapalha. É apenas uma direção correta com um deslize no final: O excesso de black outs (odeio) para costurar as cenas finais. Mas a história, a fotografia, a trilha, e sobremaneira os atores são tão maravilhosos que esqueço e embarco de vez nessa história.

E me pergunto: Vale a pena ir em busca do sonho quando a realidade nos seduz com conforto, tranqulidade e paz?

Ai, ai. Querem saber a verdade? Eu não iria para Paris.

Embora esteja vivendo como se lá estivesse...