
São tantas horas da madrugada e eu aqui vendo filme velho.
Sou do tempo que um filme demorava uns dois anos pra chegar no Brasil.
Até mais...
Daí, na minha época de faculdade eles começaram a chegar a tempo da gente julgar antes do Oscar. E ficou tudo certo.
Mas um filme do ano passado, já e falado assim pelos camaradas adolescentes:
- Ahhh tipo assim, aquele filme do ano passado? Tipo...filme antigo?
Tá tudo tão rápido né?
E o rio vai sempre em frente... parece que estão aceitando ele assim agora.
-Ah, se o rio vai sempre pra frente... pra que voltar atrás?
Como assim? Eu crio o meu rio.
O Jamal, personagem do filme "Quem quer ser o Milionário" viu a menina ali, na chuva, quase sucumbindo ao frio e não teve dúvidas...
- Vem dormir com a gente.
Dali, eles nunca mais se separaram.
Quer dizer, eles se separaram, mas o amor incondicional de Jamal estava ali, a não desistir de estar com aquela menina.
O rio corria em frente. Ele seguia com o rio. Mas o desenho do rio dele era bem dele. Um desenho cheio de curvas, de cachoeiras, de retornos...
A dificuldade dele era justamente essa: Seguir o rio que todo mundo insistia em traçar para ele.
Você é um Slumdog (favelado.... numa tradução um tanto o quanto tosca) . Então comporte-se como um Slumdog! Seja bandido! Não acredite na justiça! Siga o rio!
O irmão, Salim, seguiu em frente acreditando no que acreditavam. E foi um grande navegador daquele rio. Um bravo. Um corajoso, capaz de enfrentar os maiores bandidos da região. E nem tão corajoso ao se tornar um deles. Mas , era apenas um Slumdog, não dava pra ser o chefe, só o capataz.
Jamal não. Jamal traçou o seu rio, e seu rio seguia em direção a Latika. Ela era o seu mar. E seguiu aquele rio, e o mudou de curso, e voltou a ele. E voltou ao lugar de partida, e deu a volta por uma montanha , pelo Taj Mahal, e acabou num programa de televisão. E deu de cara com um Slumdog poderoso, um apresentador de televisão, que não seguiu o rio e que não permitia que ninguém fosse desbravador como ele.
Mas Jamal, indiferente à competição, ele só queria que Latika o visse, já que ele não tinha a menor idéia de como encontra-la, foi até o fim. E as respostas só dependiam do seu conhecimento empírico. Não precisava ser erudito, não precisava ser acadêmico, nem um gênio. O acaso estava ao seu lado. Ou Deus. Ou a sorte. Ou o destino.
Perguntas:
Existe acaso? Dizem que não. Os cientistas dizem que sim. Mas alguns cientistas já estão dizendo que não. Confuso.
Existe sorte? Acho que todo mundo concorda que a sorte existe. Mas não dá pra destrinchar cientificamente o que é ela.
Existe destino? Concordo com ele. Mas acho que podemos alterá-lo se a gente o conhece antes. Conhecer o destino? Confuso.
Existe Deus? Adoro acreditar nisso. Mas quem não acreditar, boa sorte, deve ser legal uma viagem sozinho nesse trem.
Jamal definitivamente não seguia só. Desde o início o roteirista de sua vida já estava dando as respostas. E ele contou com a ...sorte?... Deus?... ao chutar a ultima resposta.
Ele virou um milionário... (a quem interessar possa , vinte milhões de rupias equivale a pouco mais que 600 mil reais) Mas ele nao estava nem aí pra isso. Foi à estação de trem esperar Latika, às 17 horas
17. No tarô, A Estrela. Soube hoje pelo meu terapeuta e depois confirmado pelo blog CORPOETICO
, que a origem da palavra desejo deriva da palavra grego desidera, que , por sua vez, deriva de sidus que é mais usada no plural, sidera, ou seja, um conjunto de estrelas).
E entre trilhões de estrelas, ele escolheu Latika.
Mas... quando se alcança um desejo, milhões de outros precisam ser satisfeitos. A satisfação de um desejo nada mais é do que o início de uma nova caminhada. É por isso que precisamos curtir a viagem.
E a viagem de Jamal é uma das mais fantásticas que assisti no cinema.
Não é nenhuma trajetória que ninguém tenha visto, não é nada de inédito. Mas como é encantadoramente bem contada! Danny Boyle, o diretor, consegue fazer o flash back funcionar com uma precisão milimétrica. Os atores, principalmente as crianças , são tão bem dirigidos que é quase inacreditavel que elas não estejam improvisando.
Eu quero ser um milionário.
Aliás, já sou. Não sabiam?
Mas dinheiro não empresto, ensino você a traçar o seu rio.
Que não vai só pra frente não.
Ele vai para onde você quiser.