terça-feira, 2 de março de 2010

FOI APENAS UM SONHO - Reféns da realidade




Será que tem jeito da gente fugir da estrada em que nos colocaram?
Será que existe uma forma de fazer a nossa existência ser extraordinária?
Será que há absolvição para quem quer ser revolucionário?

A impressão que tenho , vendo esse filme, mesmo que ele se passe nos anos 50, mesmo que seja numa pequena comunidade americana, onde segundo seus próprios cronistas, nada, absolutamente nada acontece, é que toda vez que tentamos seguir um atalho, toda vez que experimentamos algo novo, acontecem coisas e mais coisas que vão nos perseguindo. Como um eterno Grilo Falante que vai perguntando: Porque? Porque? Porque? Ou aquele burrico do Shrek: Ainda está longe? Ja estamos chegando?
Porque não deixam em paz as pessoas que querem seguir uma estrada diferente?

Assim que Frank (Leonardo di Caprio) e April (Kate Winslet) comunicam aos amigos e colegas de trabalho que vão largar a vidinha pacata e perfeita que viviam na sonolenta "Revolutionary Road,115", vendendo tudo o que têm para ir a Paris, tudo muda ao redor deles. A tristeza que toma conta do mundo ao redor deles é contagiante. Até eu fiquei triste. A inveja de ver aquele casal simplesmente indo viver o incerto com alegria e esperança, faz todos em volta deles entristecerem. Todos queriam estar no lugar deles. Ninguém ousaria estar no lugar deles. Todos duvidam daquele sonho e ao mesmo tempo todos se perguntam: "Mas porque eles estão fazendo isso? Já não são bonitos, bem sucedidos, interessantes?".

Porque a busca incomoda tanto?

Meu pai fez isso. Tinha um bom emprego, estava estabilizado, nunca tinha ajudado tanto os filhos, e , de repente, pensou: Não quero mais isso aqui. Quero ir além. Quero ter mais. Eu posso ter mais. Não pensou em nada, nem ninguém. E desapareceu. Todos questionam a atitude. Todos recriminam o ato. Mas ninguém avalia o que é se sentir medíocre. Ninguém entende a insatisfação. Ninguém tolera o que vai em direção ao vazio em busca do desconhecido.

April estava se sentindo sem motivação, sem brilho na vida. Num grupo de teatro falido, num casamento de cores pastéis, ela se lembra de uma foto que um dia o marido lhe mostrara. Era uma foto dele , enquanto servia no Exército, em Paris. E ele disse: "Tudo é extraordinário lá. Tudo é diferente". Mesmo morando em Revolutionary Road, esse endereço fica em Connecticut onde tudo é ordinário. Depois de uma briga onde ele parece desprezar os esforços que ela faz em participar de um grupo de teatro amador (mas na realidade ele a está incentivando dizendo que ela é muito melhor que aquele grupo insosso), ela se arruma , fica linda e diz a eles: Vamos largar tudo e vamos para Paris. Ele tenta convence-la racionalmente, mas ela lembra a ele do "pacto" que fizeram de nunca ser um casal comum, patético como os demais, o que acabaram se tornando. Frank, ainda com ínfima capacidade de sonhar, se entrega ao projeto da esposa e assim eles vão se articulando e desmontando o mundo a sua volta. O único que parece estar de acordo é o louco, filho da sra Givings (Kathy Bates), que se identifica plenamente quando Frank diz, que no fundo,eles querem fugir do vazio inexorável que os cercava.

Aliás, o único que seria capaz de entender essa expressão era o lunático.

Daí, então a história vai ganhando força e as contradições vão se avolumando, até que ela engravida, e aí...

Leonardo di Caprio tem nesse filme, na minha opinião, sua melhor atuação. Gosto ainda mais que "O Aviador". Kate Winslet, sublime. Os dois estão numa sintonia incrível, perfeitos nos gritos e silêncios desse casal. O casal vizinho interpretado por David Harbour e Milly Hahn são destaque. Michael Shannon dá um banho como o matemático que ficou louco, filho de Kathy Bates. O elenco todo é primoroso. Irrepreensível.

A crítica detonou. Porque a força do livro é racionalizada e esteticizada demais por Sam Mendes. Como não li o livro, a direção me parece correta. Não acrescenta muito ao roteiro, nem atrapalha. É apenas uma direção correta com um deslize no final: O excesso de black outs (odeio) para costurar as cenas finais. Mas a história, a fotografia, a trilha, e sobremaneira os atores são tão maravilhosos que esqueço e embarco de vez nessa história.

E me pergunto: Vale a pena ir em busca do sonho quando a realidade nos seduz com conforto, tranqulidade e paz?

Ai, ai. Querem saber a verdade? Eu não iria para Paris.

Embora esteja vivendo como se lá estivesse...

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