quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


O navio demorou a chegar. Mas chegou.
Por mais que se esforçasse, Ele, o de olhos azuis, não conseguia vê-lo.
Ele , o de olhos azuis, tinha esperado a vida inteira. Sonhado, a vida inteira. Investido dias e noites a fio para que visse, desembarcando, aquele de olhos pretos que estava para chegar.
O de olhos pretos foi o último.
Parecia cansado, parecia surrado. Parecia vivido.
Não era o príncipe que imaginava ser. Nem o santo. Mas era quem ele sempre sonhara.
Abriu sua casa para ele.
Comeram e beberam. Amaram. Sonharam uma vida juntos.
Em uma noite navegaram por todos os mares, voaram alturas.
De dia, o de olhos azuis acordou. E o de olhos pretos não estava mais lá.
Era um ser de olhos vermelhos. Estranho. Incômodo. Não só não era um príncipe, mas parecia um demônio. Mais parecia ...
O de olhos azuis se assustou. No seu susto ele jogou todas a substâncias possíveis e imagináveis para destruir o monstro. Indiferença. Ódio. Raiva de todos os seus antepassados.
E quando gritou, quando berrou, quando vociferou fogo e ácido, ele viu que estava sonhando.
Não era sonho a chegada. Nem os sonhos. Nem os planos.
Os olhos vermelhos sim, eram o pesadelo.
Os olhos vermelhos eram o medo de que aquilo tudo não fosse verdade.
O de olhos pretos se asustou. Quis correr, fugir daquela pessoa que parecia possessa.
- Seus olhos ficaram vermelhos! - O de olhos pretos disse.
- Os meus... também? - Perguntou o de olhos azuis ainda babando ódio.
- Deita aqui no meu colo. Deixa eu cantar pra gente sonhar de novo...
Apesar do medo, o de olhos azuis deitou e dormiu mais um pouco...
Eles viveram, dormiram pesadelos, acordaram sonhos, dormiram música, acordaram trevas, mas nunca, nunca mais pensaram em se deixar.
Porque descobriram que era só olhar nos olhos para o medo se acabar.
(André Pimentel)




... e enquanto ele espera, ele produz, ele escreve, ele vive.
E a aliança continua.
Até um dia, quando o tempo passar.

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