segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Oito e meia



Por do sol em Ipanema.
Por volta de quase no limiar das oito horas da tarde (sim, porque é sempre tarde em Ipanema no Verão)
Ele senta-se ao lado dela.
Um terceiro olhando para ela.
O primeiro nada quer com a segunda.
Laços fortes familiares os forçam a ser apenas primos.
O terceiro pensa em se apaixonar.
A segunda pensa em se enamorar.
O primeiro pensa em se conhecer.
O primeiro pensa que o por do sol vai levar a tristeza pra bem longe. Que a tristeza é uma dama com guarda sol antigo que entra num barquinho solitário e que se vai ao sentir os nem tão inclementes raios do sol que se põe. Ele acredita nisso. Ele acredita que tudo vai mudar às oito e trinta.
O terceiro não sabe o que acontece entre os dois primeiros. Acha que o por do sol é uma boa desculpa para se apaixonar tecer uma agradável e descontraída prosa. Mas inventa um vilão: O primeiro. Ele não a merece. Ele está de costas para ela. Ele não a quer. Mas se ele a deixasse, tudo iria mudar às oito e trinta.
A segunda sonha com dias melhores, onde vai se olhar no espelho e ver a mulher mais realizada do universo. Ela sonha com serenidade. Ela sonha que o por-do-sol é um navio que aporta depois de uma longa viagem. Tudo mudaria exatamente às oito e trinta.
Às oito e trinta a mulher de guarda-sol, o navio e o romance verão o mesmo pássaro.
Um pássaro tímido . Com canto doce e melancólico. Não contínuo. Com acordes surpreendentes.
Um pássaro rouco.
Aquele pássaro que voaria alto, tão alto perto do sol que todos os julgariam "solar".
Mas é o pássaro da noite.
O pássaro dor.
A dor do desencanto, a dor do reconhecimento a dor da verdade. A dor da dúvida.
Ele está lá, na mesa de cabeceira dos três. Entre o despertador e o livro que os três jamais terminariam. Os três que andam pela mesma estrada. Os três que não se conhecem.
Os três que são a mesma pessoa.
Os três.
O terceiro se levanta e desaparece. Parece que persegue uma loura com um pequeno no colo. Ele sonha com a mãe solteira e seu filho a espera de um protetor.
A segunda deixa cair uma lágrima por detrás de seus imensos olhos escuros : "Sem eles não consigo ver o por-do-sol".
O primeiro olha insistentemente o seu telefone móvel a espera de uma resposta.
Que jamais viria.
A resposta estava no canto do pássaro-dor.
Ele gorjeia rouco dizendo: "Ninguém se cura de si mesmo"
Ninguém se cura.
Ninguém de si
Ninguém mesmo
Cura de si
Cura mesmo
Si mesmo.
Ninguém
Se...
Se...
Se...
Simone.

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