Ele se sentou no cinema.
Um filme de amor.
Estranho para quem estava se despedindo:
"Adeus ao primeiro amor".
Mãos dadas, depois das trevas, resolveram apaziguar os corações e calmamente esperar o que o filme diria aos ânimos enfraquecidos pelo adeus.
Uma garota se arrastava pela tela como uma lagartixa apática: "Sou melancólica" , ela justificava.
Ela transformou o ser amado na unica razão de viver.
E passou anos assim.
Até que descobriu um homem mais velho que a valorizava pelo que ela era.
Só que ela ainda não era.
Continuava a mesma lagartixa inexpressiva.
O antigo amor, o primeiro, reapareceu e a levou para cama.
Mais uma vez ele demonstrou que não conseguia amar mais ninguém alem de si mesmo.
E ela não conseguia sacanear ninguém além dela mesma.
O filme acabou, as mãos se soltaram, odiaram o filme.
Ele teimou em não se identificar com aquela palerma do filme.
Mas, depois, deitado já em casa, olhando para o teto, reconheceu nele o mesmo olhar, a mesma inexpressão, o mesmo vazio.
Eram gêmeos de sentimento.
Amavam demais o outro.
Não sentiam absolutamente nada por si mesmos.
Isso não fez bem a ele.
Até porque o objeto do seu amor, o dele , e o dela, são jovens, bonitos, com milhares de planos, verdadeiros, leais com eles mesmos. Portanto, protagonistas belos e interessantes de suas vidas.
Ela e ele eram tão significativos quanto as lagartixas, que se esgueiram pelas sancas atrás das moscas e dos restos.
Procurou uma solução.
Não achou nenhuma.
O chapéu navegou pelo rio até a foz, onde se misturaria com outras águas, outro lugar, navegou até o mesmo lugar, diferente.
Ele navegaria talvez até um outro rio, um outro mar.
Mas não deixaria de ser o mesmo, diferente.
A solução seria se esgueirar pelas sancas, a espera de alguma migalha, de algum bichinho de luz que o fizesse sorrir. Como em algum momento do filme aquela pamonha sorriu.
E não me disse nada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário