
Alguém anotou a placa?
Ainda não sei o que foi que me atingiu. Fui ultrapassar um Sacnia de pelo menos uns trinta metros, vinham dois carros na pista contrária, passei para o acostamento, tive que livrar um vendedor de cocadas, voltei para a estrada e fui atingido....
Pelo que mesmo?
Não adianta querer esquecer.
Eu sei o que foi.
Mas não tenho coragem de dizer pra mim mesmo.
Até porque essa é uma grande mentira travestida com uma mal ajambrada vestimenta de verdade.
É tudo mentira.
Então daqui a pouco eu vou acordar, morrer de rir dessa história toda, e daí vou ligar pra minha irmã e contar o que foi que eu inventei dessa vez.
Ela vai ficar meio impressionada, dizer que isso não se diz nem brincando, eu vou debochar dessa preocupação supersticiosa dela e talvez até a gente se estranhe um pouco.
Mas a partir daí isso não vai mais sair da minha cabeça e passará a ser uma possibilidade a considerar.
Minha irmã, a fortaleza, a alegria , a luz, pode morrer. E eu vou sofrer muito quando isso acontecer.
Portanto, não posso dizer isso nem em pensamento. Não posso nem cogitar uma coisa dessas.
Diz-se que a única certeza da vida é a morte.
Mesmo assim, eu fui apresentado à ela e meu mundo ruiu.
Algumas coisas vieram a reboque desse furacão.
Consolos
Fugas
Compensações.
E, mesmo assim, são cinco letras que, dispostas juntas, podem impregnar um espírito com desesperança, amargura , rancor, raiva, tristeza, mágoa, todas essas sensações juntas.
E daí não dá pra anotar a placa.
Porque o responsável por tudo isso pode ser o vendedor de cocada.
Só não pode ser eu.
Porque minha obrigação era ultrapassar o Scania.
Não tinha jeito.
Ele estava lá para ser ultrapassado.
E minha irmã não está mais aqui...
Sua irmã faleceu?
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