
Já tinha desistido.
O mais grave é que, antes disso tinha desistido da vida.
O mais grave ainda é que, mesmo desistindo da vida, vivia.
Olhava a sua volta e nada parecia agradar aquele cara.
Andou quilômetros e tudo o que via era deserto. Ou oásis artificiais.
Mas no final de setembro, como previsto pela pitonisa de Botafogo, ele resolveu dar um último golpe em sua vontade.
Desistiu da desistência.
E foi se alimentar no lugar onde sempre se entupia de sobremesa. Sobremesas calóricas, açucaradas demais. Desnecessárias. Bombas de nada.
Mas seu olhar era de trsiteza. Não tinha apetite. Cuspiu no prato.
Inquieto, sabendo que em algum lugar morava a fome. Bastava um olhar. Um sorriso. Uma esperança de desejo para que seu apetite voltasse.
Então, dirigiu a nau para uma praia antiga, velha conhecida. Onde a lua queimava forte a pele. Era o desejo explícito. Não era a fome, era a gula.
Olhou atentamente o cardápio, mas ali só carne crua, verduras passadas, laticínios fora da validade.
Não, a fome não podia estar ali. Não era no desespero e na miséria.
A tsunami que devastara sua alma não podia ter assolado o seu instinto de sobrevivência.
Então...
Um sorriso.
Um convite.
Um olhar.
Uma voz.
Um sotaque.
Um toque.
Um beijo.
Lá estava seu apetite de volta.
Desistiu.
Quis fugir.
Teve medo.
Muitos, muitos anos os separavam.
Muitos, muitos quilômetros os afastavam.
Mas . Estava tudo ali, naquele momento.
Abriu-se o apetite.
As portas da aventura novamente se abriram. A montanha-rusa, ainda maior estava prestes a ser brincada.
Abriu-se o apetite. O apetite veio, e voraz.
E foi um domingo intenso, a despedida foi um olá. O dia seguinte foi o primeiro dia. Todos os dias são o primeiro dia.
E quis fugir, e quis voltar, e excluiu, e adicionou, e se apaixonou.
Todos os dias eram pensamento, e aquela voz. E aquele rosto imenso e lindo na tela.
Fazendo com que se envergonhassem todas as majestades.
Tome o cetro , a coroa, venha viver no meu reino, porque eu ja estou no seu.
Venha ser a majestade porque contigo quero reinar.
Venha ser o tu numa história coloquial.
Eu te quero.
Porque você(tu) é(s) a entrada, o prato principal, a sobremesa e o desejo.
Você é o furacão e o descanso.
Sinto que você é o amor.
Seja bem-vindo, sentimento.
Eu estou vivo.
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