quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Besouros, bichanos e Zepelins


Todos comentavam sobre aquele homem taciturno que esperava.
Barba por fazer.
Uma vida inteira ao seu lado numa pequena malinha desbotada.
Flores murchas.
Um olhar amarelado de tédio e solidão.
Comia o resto de um pão que parecia duro, esfarelava ao morder.
As mulheres se apiedavam dele.
Os homens queriam tirar aquele mendigo dali. Curiosos, se perguntavam, o que ele estava esperando?
A poeira se levantava da estrada.
Logo, logo, ele ficou sozinho ali.
- Isso é vento de chuva - Dizia a velha abotoando seu sobretudo acinzentado.
Um cachorro parou ao lado dele, lambeu as costas de sua mão direita. Mordiscou as veias que saltavam dela. Abanou o rabo, como de hábito, e saiu, ressabiado, atravessando a rua poeirenta e seca.
Tudo seco.
Casas secas. Pedras secas. Pássaros secos. Postes secos.
Vidas secas.
O olhar dele parecia inexistir.
Um vácuo.
Eu podia mesmo jurar que eram besouros e não olhos naquelas cavidades fundas sobre seu nariz.
Súbito, um Zepelim.
Imenso.
Gigante.
Espalhava as nuvens da futura chuva, os pássaros sem graça batiam em retirada , lívidos.
O Zepelim reinava nas paragens sépia daquela manhã de sexta-feira.
E o Zepelim pousa. O mendigo , trôpego, vai em direção dele.
Toda a gente vê que era o elefante alado que ele esperava.
Trazia o mar em sua cauda.
Trazia o futuro em sua proa.
E a porta se abre em alegria avermelhada.
Do Zepelim desce a roupa azul turquesa do mendigo, que agora é rei.
Que agora tem olhos mel de um seresteiro.
E sorri branquinho, como um aventureiro.
E tem a bela fala de um guerreiro.
Ninguém mais viu a sombra patética do andarilho.
A velha profeta um dia recebeu uma carta de alguém que se assina :
FELIZ.
"Desde aquele dia que eu nasci , nunca mais vi cachorro sarnento, nunca mais vi o milho morrendo, nunca mais enxerguei o não ver. Desde o dia em que vivi, eu sinto o mar em meus cabelos, o luzir dos meus pranteios, o abandonar do meu sofrer.
Hoje não moro mais na dor.
Moro na Pousada do Amor"
E ainda rimando amor e dor, mas contente como um bichano arranhando um velho sofá, o ex-andarilho-atual-rei abre a janela da Pousada.
E vê mil anos florescendo pelos campos.

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