quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ALICE ATRAVÉS DO BELICHE

"We meet again old friend" de Tommy Ingberg (manipulação em photoshop)




O menino via a cama da menina em cima dele. Lençol listrado por entre o estrado. No canto esquerdo do olhar, o pai. Com um livro aberto. A história dos gatinhos que corriam atrás de um novelo. Seu olho teimava em fechar. Mas ele não queria. A voz do pai era música. Música triste. Ele sempre lia com voz tão alegre, às vezes sonolenta. Nunca triste. A mãe passa como sombra pela porta. A porta do quarto deles fecha com estrondo. O pai para. Aperta os olhos. Raiva? Outro sentimento parecido. Um sentimento que ele não conhecia. Ainda.

A menina via o teto acima dela. Um globo redondo. O pai abaixo dela lendo seu livro preferido: Alice no País das Maravilhas. Sempre pedia pra ler a parte onde a gata corre atrás do novelo. O pai estava lendo com raiva e rápido. Decerto estava querendo logo terminar o livro. Estava acontecendo alguma coisa entre ele e a mãe que passou com passos firmes pela porta. A porta do quarto deles fecha com estrondo. O pai para. Dali não consegue ver o que o pai estava sentindo, ele baixou a cabeça. Estava chorando? 

- Pai?
- Filha, dorme.
- Vocês brigaram?
- Amanhã papai vai pra casa da tia Lôra. Mas eu venho todo dia visitar vocês.
- O senhor não vai mais morar com a gente? - Perguntou o menino.

A menina entende e chora. Sempre que a menina chora, o menino chora junto. E o pai sempre chora com eles. A mãe chora no quarto trancado.

O sono vem embolado com as lágrimas. A menina dorme logo. Tem o sono pesado. O menino olha fixo pro pai. E a imagem do pai vai sumindo nos olhos marejados. A voz dele permanece nos seus sonhos. Sua voz guia-o nos amores frustrados, nos recomeços, nas estradas vazias, gargalha com suas alegrias. 

O menino acorda num salto, corre até o quarto deles. Nem a mãe, nem o pai. Abre o guarda-roupa. Só um terno preto.

Grita, com a voz dele:

- Cadê você, pai? 

A menina acorda num salto, olha pra baixo e vê o irmão saindo correndo. A "bá" entra no quarto e a ajuda a descer, aperta-a ao seu peito , seu colo é tão macio. Ouve os gritos do menino no quarto lá do fundo. A menina pega na mão da "bá" e vai até o menino que está dentro do armário, chorando,e enche-o de beijos.

- To aqui.

O menino chora terminando de digitar o texto. Tem dificuldade em terminar, porque não quer colocar simplesmente "FIM". Ou dizer que também gritou quando a irmã partiu. Também não quis dizer que via em toda pessoa que partia, um terno preto esquecido no guarda-roupa. E que queria chamar todos de volta para que todos pudessem vestir o mesmo dia de Sol.





Um comentário:

  1. Adorei a história André. Segue firme, sua escrita tem muita qualidade.Bj,Cynthia

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