terça-feira, 22 de janeiro de 2013

GLORIA MENEZES




Ele brigou, teve vontade de espancar, de matar aquela criatura. Como assim? Não gosta de mim??? Que ousadia. Amaldiçoou céus e terra. Pegou o elevador. Chegou à portaria, viu um gato. Branco. Se esfregando no banquinho do lado esquerdo da comigo-ninguém-pode. Veio a brisa.

O outro saiu do velório. Lembrou de cada momento com aquela pessoa. Chorou. Os olhos inundados o fizeram desorientar-se. Esquerda? Direita? Para onde fica a saída. E aquela gente toda chorando. Dez capelas uma ligada a outra. Frases desconexas no corredor. Uma menina perdida, vestido rosa, maria-chiquinha. Sorriu pra ele. Fez uma careta gostosa. Uma coisa doce a envolveu. Ela. A brisa.

Clara no meio da prova de matemática surtou. Pegou a prova e a rasgou em mil pedaços. A professora, atônita, achou que ela fôsse agredi-la tal a fúria da menina. Ela juntou seu material com violência, chutou a carteira, passou pela professora e disse com um sorriso terno: "A culpa é minha, não estudei, mas você é a melhor professora que já tive" . E enquanto a menina saía, uma sensação gostosa de fim de tarde de primavera na praia do Arpoador. Delícia de brisa.

A angústia estava tomando conta dele. Eu não sirvo pra nada. Quero ter minha casa. Foi por isso que ela não me quis. Ou porque estou gordo. Essa janela gradeada parece uma prisão. Um vazio imenso no peito esperando que ela ligue. Ele queria tomar uma dose dupla do seu antidepressivo e dormir pra acabar com aquilo. Liga a Tv. Gloria Menezes entra em cena cantando , encantadora, deslizando leve em anos de trabalho. Violeta é o personagem. Meio louca, meio sonsa. Linda em seus 79 anos. Respirou fundo, e sentiu a brisa dentro dele. A imagem daquela mulher misteriosamente o preencheu.

"Se ela pode, eu posso".

http://www.youtube.com/watch?v=CLOqNeCps20

Nenhum comentário:

Postar um comentário