segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
SOBRE SEREIAS
Vicente enjoava nessas grandes distâncias. Preferia as viagens de uma semana, no máximo oito dias. Mas já fazia um mês que ele estava em mar aberto e nada ,nenhum sinal de terra firme.
Viu a imagem do pai em seu camarote. Nítidamente. Como se ele tivesse voltado dos mortos, com trinta anos de idade , sorrindo. Belo em seu uniforme de comandante.
A inapetência era exagerada. Não conseguia comer um amendoim. Sonhava com banquetes, mas quando a comida era servida no Navio Mercante, por mais apetitosa que fôsse não conseguia tirar o gosto de bílis da garganta.
Sede. Muita sede. Por mais que bebesse a água velha do Navio Mercante, mais sede sentia. A Água era fresca, mas velha.
Estava enjoado. E nada de terra firme.
Descia para seu camarote depois de algumas horas de desesperança, vendo o horizonte, quando avistou de relance, terra firme.
E aquela música.
Voz de mulher. Uma bela voz de soprano. Música desconhecida e melancólica.
Ora longe, ora perto.
Ela sorriu para ele. Seus dentes eram tão brancos que iluminavam o mar inteiro.
Os olhos brilhavam e o desejavam.
Sua pele era tão branca... Seus lábios tão convidativos e carnudos...
E os seios...fartos... imensos...lindos.
Aquela mulher nua que conseguia cantar apesar do nado apressado acompanhando o navio o enlouqueceu.
Em segundos ele pulou no mar e a seguiu.
Perseguiu seu nado apressado e via em seu olhar o eco da palavra : "Vem".
Ele foi.
Mas... e sua pernas?
Não tinha pernas e sim uma bela barbatana translúcida e azulada , que deslizava em sutil velocidade em direção à terra firme.
"Vem".
Ele nadava rápido também, sorria, apesar do esforço.
E ela cantava. dançava linda no fundo mar em direção ao continente.
Ele possuiria a mulher-peixe e viveriam em terra firme.
Construiriam uma bela casa. Teriam filhos. Belos meninos e meninas peixes vivendo em vida dupla, dançando como ele e cantando como ela.
Como ela era bela, seus cabelos negros se confundiam com as algas mais escuras do mar.
Logo, a praia.
Ele , com sua destreza ao andar na areia. Não andava, quase saltitava.
Ela chegou na areia.
Ele estava tão feliz com a chegada ao destino que não viu que ela agonizava.
Seu olhar dizia: "Você me enganou"
Ela seguiu o jovem mancebo que a observara da balaustrada. O belo rapaz que a ensinaria a viver na terra dos que andam pesado , com duas pernas.
Na Lenda das criaturas do mar, a mulher peixe criaria pernas assim que chegasse a uma praia branca e reluzente como aquela.
E ela viu no olhar feliz do belo moreno que a observara o eco da palavra: "Vem".
E ela foi. Acompanhou o bípede marítimo que deslizava a seu lado num sorriso abrasador.
E quando chegaram à terra ele sorria enquanto seus olhos se fechavam pela última vez, num último suspiro.
Vicente enterrou a mulher peixe e a agradeceu por tê-lo ensinado a voltar à terra firme.
Nunca mais a tripulação viu aquele louco que sem ter porquê, se atirou ao mar bravio.
Há quem diga que foi uma sereia que o atraiu para o mar.
Há quem diga que Vicente nunca existiu.
Há quem diga coisas bem tolas.
"Você é mais do que sei, é mais que pensei, é mais que esperava baby, você é algo assim, é tudo pra mim, é como eu sonhava, baby, sou feliz agora, não não vá, embora não"
Falando de sereias...
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