segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
O DIA ESTÁ CHORANDO
Ela escreveu no seu diário a ultima página sobre ele.
Ficou pensando se iria arrancar, não podia ser descoberta. Eram páginas comprometedoras.
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Colou uma florzinha que recortou de uma revistinha em quadrinhos. Da Mônica.
Depois coloriu as palavras "ele".
Fez um coração em todas as letras i's, como sempre fazia desde os onze anos.
Sublinhou em vermelho as duas palavras diferentes que aprendeu:
"renúncia" e "desapego".
Foi à janela e começou a contar os repetidos pingos de chuva no vidro limpinho.
Por mais que contasse, não conseguia chegar ao final.
Sorriu com a tentativa vã de contar.
Cansou e foi ao espelho.
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"Sou bonita", pensou.
Olhou para os seios que começavam tomar uma forma definida e a ficarem belos. Admirou sua magreza e sua brancura.
"Sou bem bonita". E sorriu por conseguir pensar nisso.
Dezoito anos, ele.
E no carro vermelho ele chorou porque ela quis se despedir.
O perfil dele e a lágrima que caiu em silêncio virou um rio de tristeza na alma.
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Tão jovem, ela.
Tão apaixonada. Ele foi o primeiro. O primeiro de todos.
Sorriu pensando naquele dia. Quando ela se entregou logo depois que disse:
"Assim, só casando".
Sorriu, porque sabia que ela já estava casada.
Sorriu agora porque sabia que era tudo mentira. Mas que era tudo verdade também.
Sorriu ao constatar que seus dentes eram lindos.
Lindos.
E os dele também.
Na foto que ela tinha dele, ele era o único que tinha os olhos brilhantes. Todos com olhares divertidos, mas opacos. Ele, com olhar triste e brilhante.
Ele a amou.
Ele, para ela , era ELE. Ela, para ele, era ela.
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O cavalheiro do carro vermelho quis ser gentil. Quis ser seu príncipe.
Mas ela queria a serenata que os livros prometiam.
Queria o beijo roubado.
Queria a surpresa.
Queria ver o mundo com ele.
Ele queria vê-la feliz.
E ela estava.
Porque o seu primeiro foi gentil. Porque o seu primeiro foi um príncipe.
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Naquela noite que escreveu no diário ela foi rainha.
Escreveu "renúncia" e "desapego" no diário com dezesseis anos.
Uma menina desfiando o novelo do mundo.
Isso não é bem isso e aquilo pode ser isso também.
Lembrou do choro abraçado a ele na porta da casa e do medo que teve de ser descoberta.
Teve medo que descobrissem seu plano de seduzir um príncipe para que ele fosse o primeiro.
Anita, Lolita,Pepita, Rita... não importa.
Todas naquele momento teriam os olhos marejados como ela.
Quando andou até sua casa sem olhar para trás.
Louca para escrever no diário e contar para ele que aprendeu a usar a palavra "renúncia".
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"Sabe diário, não é porque ele foi o primeiro, que será obrigado a me amar. Devo deixar ele ir embora. Isso se chama renúncia. Tenho que deixar ir, tenho que respirar fundo e simplesmente deixar ele ir. Parece que isso se chama desapego. Ele estava lindo de camisa branca. Ele é lindo de qualquer jeito. E eu deixei ele ir. Acho que estou virando adulta". Não, ela não ia destruir seu diário assim. Seria seu único jeito de jamais esquecer daquela sensação revolucionária.
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A menina pegou a boneca de pano dela, arrumou junto aos ursinhos, colocou na prateleira mais alta do armário. Pegou um livro, "O diário de Anne Frank" e começou a ler.
Mas adormeceu na segunda página.
https://www.youtube.com/watch?v=tv7S8v3rM-U
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